Viajando de carro

Uma das diferenças mais curiosas entre o Brasil e a Espanha é que aqui o mês de agosto é o mais esperado do ano. Não é um mês de azar. Muito menos um mês de “desgosto”. Agosto é o equivalente ao nosso janeiro e isto quer dizer: férias, verão, calor e tudo o que isto tem de bom. Cidades vazias e praias cheias. E desde que nasceram os meninos, não passava esta estação por aqui. Sempre aproveito a época das férias mais longas para visitar a família no Brasil. Mas este ano foi diferente: ficamos na Europa quando ela está mais bonita e vamos deixar o Brasil para o fim do ano e, assim, ter dois verões. Uhuuuu!

Como destino de férias, escolhemos o sul da França e visitar minha querida irmã Simone. Não é uma viagem muito longa para os padrões brasileiros ( 800 km separam Zaragoza de Marselha ), mas viajar de carro em agosto pode exigir paciência dos motoristas. As autopistas são excelentes, o limite de velocidade na França é de 130 km/h, tem três faixas para cada lado, mas fizemos mais de 100km em primeira e segunda. Muito tráfego! Muito! Dizem que por medo a atentados nos trens, este ano de 2015 baterá todos os recordes de movimento nas estradas. Parecia que todos os europeus decidiram fazer o mesmo caminho. E quando olhávamos a estrada no sentido contrário, era ainda pior. Alemães e seus mercedes, holandeses e seus motorhomes, marroquinos voltando para a França depois de ter atravessado o estreito de Gibraltar, todos se encontram na autopista. Parecia um domingo de sol em Ipanema: democracia no engarrafamento.

E eles levam de tudo nos carros: montes de bicicletas, motos, barcos e, principalmente, o arsenal para picnic. Se você pretende viajar pelo verão da Europa, atue como eles: não pague caro por uma comida ruim de estrada. Leve tudo de casa! A cada 10 ou 20 kms há zonas para fazer um descanso nas autopistas. Com meses, bancos, banheiros limpos e, em muitas, parquinho para as crianças gastarem um pouco da energia acumulada. Dos carrões e dos carrinhos, todos tiram o seu isopor com sanduíches, sucos, queijos, saladas, embutidos e comem ao ar livre. E você ainda se diverte observando esta espécie de ONU improvisada. Depois é voltar para o engarrafamento e preparar a carteira. A viagem (ida e volta) nos custou 140 euros apenas em pedágios. Bem, pelo menos, as estradas são excelentes.

Temos muito sorte com Hugo e Carol porque eles agüentam bem uma viagem longa. E olha que ainda não adotamos o dvd no carro e decidimos dar férias também para o tablet. Como distração: música, jogos, biscoitos e alguma briga entre os irmãos, que isto também ocupa o tempo. Quando a coisa piorava, uma parada para correr, que resolve qualquer conflito. Eu sempre gostei de viajar de carro e, na minha infância, percorri boa parte do Brasil com minha família dentro de uma Belina. Não tinha nem ar-condicionado, nem estrada boa e nós nos divertíamos muito. Espero que os meninos também aprendam a gostar deste tempo de olhar a paisagem e simplesmente não fazer nada. Aprendemos muito conversando no carro. Deixamos voar a imaginação e vamos inventado vidas para as pessoas dos carros ao lado. Algo de bom tem que ter um engarrafamento…

E por fim chegamos ao nosso destino e reencontramos a  família brasileira que está aqui perto. Parte do encanto é juntar os primos e escutar o português como língua do encontro. A língua que ninguém fala direito, mas todos entendem. E de um jeito ou de outro, aqui ou do outro lado do Atlântico, a família e o português sempre encontrarão uma forma de se encontrarem.

Os primos Gabriel, Hugo e Thomas.

Os primos Gabriel, Hugo e Thomas.

 

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Vendo Marselha do alto.

 

 

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