Terra pelada

Nos sentimos em casa no instante em que pisamos novamente em Bali. O jardim florescia e a horta estava repleta de Pok Choy, a couve preferida do Vicente. Ketut e Pak Gede (o jardineiro) nos esperavam com aquele sorriso de quem tem o coração sereno e uma vida com sentido. Os meninos correram para a cesta de brinquedos, depois ficaram horas a olhar a piscina. Mas já era tarde, estava mais fresco do que de costume e naquele instante o vento não convidava ao mergulho. Observamos juntos o arrozal e, com alguma decepção na voz, Vicente me perguntou: “Eles ainda não plantaram, né mamãe?”.

A terra ainda estava pelada. Pak Made* e sua turma trabalhavam dia e noite, literalmente, para puxar água do Subak (sistema de irrigação local) e preparar a terra para receber as novas mudas. Naquele instante percebi que o arrozal e nós vivíamos numa espécie de mimetismo. Há cinquenta dias, quando saímos de casa, estávamos a caminho de uma perfeita festa de colheita. Na volta, éramos nós e a terra completamente nus, nos preparando para as sementes que deveriam vingar nessa nova safra de Bali.

A festa da colheita dos Golzi Braga foi belíssima. Juntos curtimos cada fresta de contato. Perdemos várias horas de sono. E ganhamos aconchego, carinho, intimidade. Foram noites com os primos todos juntos fazendo farra, cafuné, contando histórias. Dias com avós mimando os netos, e noitadas dos pais contando com os melhores baby-sitters do mundo. Amigos fazendo as malas e pegando a estrada para nos acompanhar em dias de férias na praia, outros perdendo horas de trânsito e também de sono, só para recuperarmos um pouco do tempo que não temos juntos.

Filósofos dizem que navegamos pela vida como no mar, que as terras e as cidades se afastam e que antes de tudo o que deixamos para trás é a infância, depois a adolescência e assim seguimos. E que a história que fica é ficcionada, uma fábula que nasce a partir de fatos reais, mas que ganha outra dimensão quando em contato com a nossa imaginação. Mas nessa viagem de volta à nossa terra original, nada precisa ser imaginado, nada precisa ser dito para além do que é de verdade. Nos conhecemos, nos reconhecemos, nos amamos, nos queremos bem. Vivemos uma fase de colheita genuína de toda uma vida que, mesmo longe, segue vinculada a essa terra onde vive o nosso maior e primeiro patrimônio, o afetivo.

Já estamos de volta há mais de um mês e as vozes, a música e a bagunça do fim de festa ainda ocupam o espaço da minha casa, do meu corpo. De alguma forma, são os ecos dessa origem que me fortalecem para plantar sementes em outras terras. É desse eco que vem a certeza de que, se fizermos pelo coração, vai valer a pena. E tem valido cada segundo de busca e de encontro.

Mas pena também sinto por não estar ali, onde mora esse enorme patrimônio afetivo. Bom seria continuar aquele cafuné, olhar mais naqueles olhos que nos conhecem para além do espelho, ver meus sobrinhos de novo, antes que usem um novo número de sapato, e saber que os avós verão os netos antes de mudarem o corte de cabelo. Mas, assim como os bichos que saem da terra em tempo de entressafra em busca de alimentos, ainda estamos explorando o espaço onde dormem as nossas cobras. Não sei o que faríamos fincados no território de sempre. Por aqui sinto a leveza e a liberdade para ir em busca de um outro tipo de nutrição e de algumas sementes que ainda não sabemos bem quais são. Estamos na fase de plantar novas mudas, abrindo espaço para um tempo com mais tempo. E quem sabe quando dele, do Senhor Tempo, formos íntimos e aliados, teremos dentro de nós as sementes para voltar à velha terra. Levando novas ideias e honrando o tempo que a vida pede para fortalecer o que também não abrimos mão: a nossa raiz.

* Pak é a abreviação de Bapak, que em indonésio significa senhor e também pai. Pak Made é o dono da plantação de arroz que nos cerca. Já escrevi sobre ele antes e um dia peço licença e publico uma foto desse povo bonito que nos cerca.

Comentários

  1. Bia, lindo texto! Muito verdadeiro! Estamos com mais um pássaro da nossa família que vai em busca de seus sonhos, novos ares! Marina parte no dia 28 para a Tailândia, ela vai sozinha para um período sabático, não ficará somente aí e deve te contatar, visitar.

    • Paulinha, um beijo para você que hoje deve estar cheia de saudades. Que belo vôo da Marina. Esse canto da terra tem muitos encantos. Espero que nos encontremos muito por aqui. Beijos

  2. Bia, seus textos…sempre mexem em alguma cordinha emocional…vão fundo e trazem sorrisos, lágrimas, ansiedades, alegrias…bjs e continue até nos dar muitas cronicas, quem sabe um livro…bjs

  3. Bia querida. Sua maneira de contar as histórias e os sentimentos sempre me emocionam. Pena que não nos vimos, mas vi fotos e filmes de vocês. Fiquem com Deus e colham muitas safras de arroz. Um experiência única. Beijos a vocês e aos filhotes.

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