Temos que falar sobre isso

Depressão pós-parto, perda gestacional ou neo-natal são assuntos mais que tabus, quando se fala sobre maternidade. A brasileira Thais Cimino, radicada em Bayona, França, teve a coragem de não apenas abordar estes temas, mas também de abrir um espaço para que outras mulheres possam falar sobre eles e, principalmente, desabafar. O blog Temos que falar sobre isso está tendo uma enorme repercussão e, em pouco mais de quatro meses de existência, já recebeu mais de 300 mil visualizações. 

Conversamos  com a Thais e ela fala um pouco para a gente tudo aquilo que deveríamos, mas muitas vezes temos medo de falar.

Mães em Rede:  Afinal Thais, do que temos que falar?

Temos que falar das dores, dificuldades e desafios que permeiam a maternidade. Porque além de ser um momento mágico, transcendental e de amor incondicional, pode ser um momento cheio de tristeza, angústias, solidão e medo. E isso não é permitido às mulheres de sentirem ou falarem, mas isso faz parte também desse período. Falar sobre os obstáculos, sobre o luto, sobre a morte, sobre o que ninguém fala, sobre a dor… sobre tudo que é silenciado na maternidade como um todo. Para isso estamos aqui. Por isso o projeto existe. Para falar sobre o que ninguém quer ouvir, mas que pode ajudar muito na conscientização das possíveis dificuldades e pedras no caminho. Dessa forma, quem sabe não conseguimos evitar que tantas mulheres sofram sozinhas e caladas com suas dores durante a gravidez, o parto e o pós-parto por não saberem do “lado b” que também as espera? Juntas podemos minimizar o impacto das dificuldades que permeiam o período gravídico-puerperal, criando uma rede de apoio de mães que estão passando pelas mais diversas situações que a maternidade real apresenta.

 

Mães em Rede:  Depressão pós-parto, perder uma gestação, um filho são assuntos mais que delicados, que pouca gente comenta. O que te levou a criar o blog Temos que falar sobre isso?

Eu moro fora do Brasil há 10 anos. Quando engravidei da Vida eu morava na Austrália porém viemos pra França porque meu marido é daqui. Eu não quis ir pro Brasil ter a minha filha, com medo dos tantos casos de violência obstétrica (1 a cada 4 brasileiras relata haver passado por isso) além dos números alarmantes de cesarianas que coloca o Brasil como líder mundial de intervenções. Aqui eu tive meu parto natural humanizado hospitalar pelo sistema público de saúde. O meu problema começou com a amamentação, eu tive muitas dificuldades e sofri dores terríveis nos seios durante os primeiros 45 dias de tentativa de amamentar a minha filha. Fui acompanhada por diversos profissionais que diziam que em teoria tudo estava ok, mas aquela dor era cada vez mais insuportável e eu comecei a me sentir cada vez mais insegura, tinha medo e sabia que aquilo estava dando errado. Então o meu mamilo rachou, sangrou, o leite começou a empedrar em um dos seios, eu estava com dor, e muito cansada pelo que havia se transformado a minha rotina todos os dias: dar o peito, fazer compressa fria, compressa quente, tirar o leite com a bombinha, fazer massagem no seio… e 5 minutos de haver acabado esse processo ele começava outra vez, pois a minha filha estava novamente com fome e eu estava arrebentada, pois ela mamava em torno de 45 minutos, e em média de 2 em 2 horas… Mas eu não podia de forma alguma “ser fraca”, não tinha o direito de “não agüentar” porque “é assim mesmo”, “a única forma de passar é colocando o bebê pra mamar”, “você está fazendo tudo certo, não está pensando em desistir, né?”, “não há nada mais que podemos fazer, tem que só que esperar esse início passar, vai passar”… Finalmente fizeram uma ecografia e o diagnóstico foi um abcesso mamário. O que é isso? Por que ninguém me disse que isso podia acontecer?! Internação urgente, e cirurgia com anestesia geral no dia seguinte. Colocam um dreno no seio que cai sozinho entre 5 e 7 dias, e fica o corte aberto para cicatrizar de dentro pra fora, que demora cerca de 1 mês. É surreal. Meu mundo desabou. Nunca tinha feito uma cirurgia ou tomado uma anestesia, por isso tive muito medo de morrer na mesa de cirurgia e perder a chance de ver a minha filha crescer. Tive que desmamar abruptamente a minha filhinha de apenas 45 dias. Chorava desesperada cada vez que tirava o leite do outro seio e tinha que jogar fora pelo ralo o que pra mim era “amor líquido”. Me sentia mal muitas vezes em ter que dar mamadeira pra ela em público, como se eu fosse uma criminosa. EU me julgava e na minha cabeça o mundo ao meu redor também. A vida me deu um tapa na cara e me mostrou que eu não podia controlá-la. A Vida me ensinou que amor está muito além de tudo isso. E a moral da história é que eu aprendi que eu não podia julgar ninguém, NINGUÉM, porque somente cada um sabe da sua própria história.

A partir da minha experiência pensei que deveria abrir um espaço para que as mulheres pudessem falar de tudo isso sem censura e sem julgamento. Vi a necessidade que eu senti de ser acolhida e não encontrei apoio, e depois que superei um pouco as minhas dores, elas se tornaram um motor para ajudar outras mulheres a não passarem por suas dificuldades em silêncio e sozinhas. Assim surgiu o Temos que falar sobre isso, para dar voz às mulheres, criar uma rede de apoio e falar sobre o outro lado da maternidade, que me pegou desprevenida.

 

Mães em Rede: Para uma mãe que está sofrendo com a depressão põs-parto, o que você aconselharia? E para o resto da família (marido, companheiro (a), pais, etc) o que podem fazer para ajudar?

Procure ajuda, converse com alguém próximo e de confiança, se abra, não guarde pra você o que está sentindo. Não fique sozinha, uma das coisas mais comuns são mães isoladas do mundo, pois não encontram espaço na sociedade para estarem com seus bebês. Depressão pós-parto não é frescura, não é bobagem, quando acompanhada por um profissional (terapeuta, psicólogo, conselheiro, assistente social, médico de família, psiquiatra…) é um apoio muito efetivo para a mulher. Para algumas mulheres a maternidade é mais fácil e para outras mais complicado, por isso não se culpe, esse período nos evoca sentimentos que estão guardados dentro de nós de muito tempo, e podemos nos deparar com uma parte muito sombria de nós mesmas. Procure apoio, não há nada de errado em pedir ajuda. A maternidade é uma transformação e todas as mulheres passam por algum tipo de dificuldade, então participar de grupos de apoio de mães, pode ajudar muito também a que a mulher veja que não está sozinha, que todas passamos por dificuldades e que juntas é mais fácil de superar.

Família e amigos devem cuidar da mãe, é uma grande necessidade cuidarmos de quem cuida do bebê, pois os primeiros meses são de extrema fusão do bebê com a mãe e uma demanda constante de cuidados. A mulher precisa de um tempinho pra tomar um banho com calma, para comer, para descansar, para aprender a amamentar e a conhecer o bebê e aprender o seu novo papel de mãe. Quem está ao redor dessa mulher deve estar disponível para atender às suas necessidades, ter um abraço apertado e um ouvido acolhedor. Alguém que limpe a casa, que faça a comida, que cuide dos outros filhos (se houverem), que lave a louça, as roupas, que pergunte como ela se sente, do que ela precisa, ou que saia com ela pra dar um passeio e respirar um ar puro, tudo isso pode sem dúvidas ajudar essa mãe, e pode ser feito pelas pessoas próximas. Acreditar que uma mãe pode ou deve dar conta de tudo sozinha é um erro grave e recorrente e que pode agravar a situação.

 

Mães em Rede: Como lidar com perdas tao dramáticas como a de um bebê desejado e esperado?

Pois é, como lidar? Não acho que haja uma regra nesses casos. São situações de extrema delicadeza, de dor intensa e de luto profundo. Viver a dor, o desespero, e deixar expressar os sentimentos relacionados a essa perda são os primeiros passos, eu acho. O percurso que cada um faz até conseguir aceitar e seguir adiante é muito complexo. O caminho pode ser longo e cada pessoa tem o seu tempo. A recuperação varia de pessoa pra pessoa, e procurar apoio é muito importante para que os sintomas não se agravem e para o reconhecimento de que isso acontece com outras pessoas também. É indispensável o equilíbrio para passar pelo processo do luto de forma saudável, para não se entregar à dor e ao mesmo tempo não negar o acontecido.

Os amigos e familiares muitas vezes no intuito de ajudar podem tornar o processo ainda mais difícil, na dúvida, mais do que falar alguma coisa, quem quer apoiar deve saber escutar e compreender, estar disponível e mostrar que a mulher não está sozinha. Esse filho que se foi, será eternamente presente na vida dessa mãe, nada nem ninguém nunca poderá substituí-lo. Com o tempo a dor vai acalmando, o interesse pela vida vai voltando e a perda começará a ser aceita, mas nunca esquecida, porém esse processo trará sem dúvidas muita sabedoria e transformação.

 

Mães em Rede: Você acha que existem diferenças entre ser mãe no Brasil ou na França, onde você vive?

Com certeza. Aqui onde eu moro, é uma cidade de 40 mil habitantes. Violência é algo que mal se vê por aqui. É muito bom ter essa tranquilidade de sair com a minha filha pra qualquer lugar e não ter que me preocupar com isso. O governo oferece ajudas financeiras nos 3 primeiros anos do bebê e isso faz com que a gente consiga viver com o salário de uma só pessoa, então eu me dedico aos cuidados da minha filha não precisando terceirizá-los e isso pra mim é muito importante. Aqui as pessoas são felizes com menos, não precisamos de empregada, salão de beleza, carrão… depende da ambição de cada um, pra nós comer super bem, viver perto da praia e poder passar tempo em família é o que   significa qualidade de vida. Isso no Brasil nós com certeza não teríamos, pois para viver lá os gastos são muito maiores e ambos teríamos que trabalhar duro para pagar todas as contas, além disso pra mim não há nada que conte mais do  viver num lugar sem violência. Por outro lado, a minha experiência por aqui é muito solitária, a família do meu marido não nos acolheu e não é presente, fazer amigos e conhecer pessoas é algo muito difícil. Sinto falta a família por perto, mas é assim mesmo, temos que colocar na balança tudo e pra nós pesou dar qualidade de vida pra nossa filha.

 

Mães em Rede: Ser estrangeira pode agravar os sintomas?

Sem dúvidas. Quando eu cheguei estava grávida de 3 meses, e não falava nada de francês. Estava em um país estranho, não conhecia ninguém. Me senti muito sozinha. Além do rechaço da família do meu marido (justamente por eu ser estrangeira) que veio como um balde de água fria. Essa situação certamente não ajudou a que eu tivesse uma gravidez e um pós-parto tranquilos. Vivi todas as minhas dúvidas e inseguranças de maneira muito solitária, foi praticamente impossível encontrar apoio. No meu caso, depois da cirurgia eu fiquei muito vulnerável e tudo que eu senti foi intensificado por me sentir um “alien” por aqui.

 

Mães em Rede: Durante a gravidez, o que poderíamos fazer para prevenir uma depressão pós-parto?

Falar sobre os nossos medos, dúvidas, angústias durante o pré-natal é uma maneira de poder entrar em contato com os nossos sentimentos e expor para os profissionais (também amigos e família) o que está nos deixando tristes ou ansiosas. Se houver já algum sofrimento intenso durante a gestação é bem provável que se agrave no pós-parto. Procurar ajuda psicológica se sentirmos que está muito difícil de encarar todas as mudanças que estão acontecendo no nosso corpo, nossa alma e mente durante esse período pode ser de grande ajuda para aliviar nossas dores. Conversar com as pessoas próximas que poderão vir ajudar no pós-parto para ter uma rede de apoio também é bem importante. Preparar-nos para o que vem depois: as possíveis dificuldades com a amamentação, o parto acabar não estando a altura das nossas expectativas, o bebê que será ainda um desconhecido e precisará de adaptação e cuidados permanentes, as mudanças bruscas emocionais e hormonais que acompanham o pós-parto, o cansaço, as dúvidas… tentar prepara-se para tudo isso pode ajudar porém ainda assim não é garantia de escapar da depressão pós-parto, cada pessoa é unia e traz consigo uma história de vida. Estar atentas aos nossos sentimentos é fundamental, e buscar apoio de amigos, familiares, roda de mães, grupos de apoio e profissionais durante o pré-natal, durante o parto e no período pós-parto para amenizar o furacão que acompanha o processo de tornar-se mãe.

 

Mães em Rede: Violência obstétrica é, infelizmente, uma agressão bastante comum nos hospitais brasileiros. É diferente na França? Como é a preparação ao parto aí?

É diferente sim, e como disse antes, foi uma das razões pelas quais eu escolhi vir pra cá ao invés de voltar para o Brasil para ter a minha filha. O pré-natal aqui é feito pelas enfermeiras-obstetras, cada consulta pode durar o tempo da necessidade da gestante. Se focaliza bastante nas dúvidas e estado geral da mulher com um olhar atento pra situação familiar e psicológica, pelo menos assim foi na maternidade onde eu ganhei a minha filha. O parto também é acompanhado pelas enfermeiras-obstetras intervindo o médico somente em casos que há complicações. A cesariana é um procedimento de emergência que hoje está em torno de 20% aqui na França, o que é motivo de preocupação das autoridades por essa taxa ser considerada alta e uma das causas mais freqüentes de violência obstétrica, o objetivo para os próximos anos é de diminuir para os 10 a 15% recomendados pela OMS. Há um órgão que se chama Observatório da Violência Obstétrica, que busca regular, informar e identificar os casos de violência obstétrica na França, que ainda é um tema tabu. Em comparação com o Brasil que a taxa de cesariana é de 84% na rede privada e a violência obstétrica assola 1 em cada 4 mulheres, o cenário por aqui é bem tranquilizador.

 

Mães em Rede: Como está sendo a repercussão do blog?

Está superando todas as expectativas, deixando de ser um projeto pessoal para ser uma construção coletiva! As mulheres se respeitam muito, e estão acolhendo umas às outras lindamente. Já está se formando uma rede de apoio feita por elas e para elas, e isso é uma coisa maravilhosa de se ver, o carinho, a empatia e o apoio que encontramos são a prova de que estamos no caminho certo. Em quatro meses que estamos no ar já alcançamos 300 mil visualizações, isso pra nós só demonstra que estamos falando de temas que realmente precisam da nossa atenção. Nossa página no Facebook conta com mais de 12 mil seguidores. Já recebemos mais de 100 Desabafos Anônimos e hoje mais de 20 profissionais participam do projeto. Além disso  temos algumas parcerias muito bacanas e muito ainda está por vir, nós estamos recém começando e a estrada é longa.

 

Mães em Rede: Quais são os tipos de depoimentos que vocês mais recebem no blog?

Recebemos muitos tipos de desabafos: perda gestacional e neonatal; violência obstétrica; depressão pós-parto; muita culpa, solidão e ansiedade; crises conjugais e traições durante a gravidez ou depois do nascimento do bebê;  mães sofrendo com o julgamento constante que vivem da família, sociedade, companheiro/a, amigos; mulheres sobrecarregadas com os sentimentos e rotina da maternidade; dilema da volta ao trabalho e o fim da licença maternidade; dificuldades com a amamentação… Entre tantos outros casos.

 

Mães em Rede: Como podemos fazer um depoimento no blog?

Basta acessar o link e escrever a sua história: https://temosquefalarsobreisso.wordpress.com/faca-aqui-seu-desabafo-anonimo/

Os Desabafos podem ser feitos de forma anônima, as informações pessoais não são obrigatórias, mas há a opção para quem quiser se identificar.

 

 

 

Comentários

  1. Obrigada Ro, por trazer a Thais. Thais, que coragem e ideia inspiradora. Bom saber que vocês existem. Sempre existe espaço para termos que falar sobre as questões da maternidade.

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