Notting Hill tem carnaval.

“Você que é brasileira, me ensina a sambar?”

Quantas vezes já escutei essa pergunta , e não é nada que eu me orgulhe: sou brasileira, não sei sambar. E agora, por onde eu começo a me explicar? Sou paulistana e,  na minha geração, o samba não fazia muito parte da cultura da cidade. Apesar de na casa de meus pais sempre ouvirmos muito chorinho e bossa nova, o samba nunca foi trilha sonora frequente. O gingado eu tenho, mas os pés, eles não se entendem com o resto do corpo. Não é só isso não. Eu e multidão não nos toleramos,  já estraguei alguns programas  porque apago quando me sinto sem saída. Acho que minha irmã nunca irá me perdoar por eu ter desmaiado antes de começar o show do Menudo, na pista do Morumbi, quando éramos pré-adolescentes. Acabamos entre lágrimas, escutando “Não se reprima” pelo rádio do carro, no caminho de volta para casa.

Introdução feita- e espero que aceitem meus argumentos- considerem que este é um relato da pessoa descrita acima, além de  saudosa de seu país.

Domingo e segunda-feira teve carnaval no bairro onde moro aqui em Londres , Notting Hill. Há três anos o carnaval de Notting Hill já rondava nossas vidas, desde que Miguel começou a trabalhar na cidade. Quando chega agosto o bairro começa a mudar e se preparar para a festa. Todo mundo só fala no carnaval, e até uma revistinha com toda informação para que os moradores se preparem, chegou pelo correio para nós. Nela tinha desde a programação e informações do trajeto dos desfiles, pontos de onde teriam manifestações carnavalescas,  até regras de estacionamento, coleta de lixo, o que fazer se se percebesse algo errado acontecendo. Tem gente que, como em Olinda, aluga suas casas para foliões durante os dois dias de festa. O carnaval aqui coincide com o feriado bancário que marca o final do verão. Tudo isso me causou um certo medo do que ia virar nossa vida nesses dois dias. Contudo, o mapa da festa me tranquilizou. Não estávamos no olho do furacão, nossa casa fica há 200 metros dos pontos mais próximos de festa.

tapumes notting hill

Sexta-feira passada o bairro estava transformado, como que preparado para a tormenta: tapumes em casas e lojas nas ruas principais, tudo fechado, vielas fechadas com grades, trânsito impedido em várias vias, estacionamento proibido, carros de som e food trucks estacionados nas ruas, muita polícia circulando. Vish, lá vem chumbo… na expectativa pelo pior.

Domingo amanheceu sem sol, mas sem chuva. Não fui acordada pelo trio elétrico, como eu imaginava, mas por Cuca que queria passear. Ao sair de casa para o passeio, senti uma atmosfera diferente em Londres. Tinha alegria no ar, um cheiro de carvão queimando nas churrasqueiras e o movimento de famílias inteiras circulando com sorrisos nos lábios, interagindo com as outras pessoas pelas ruas. Na igreja do lado de casa as crianças se preparavam com suas fantasias sobre mitologia para seguir o bloco que se apresentaria. Um double decker , aquele típico ônibus inglês de dois andares, todo enfeitado os acompanharia e faria as vezes do carro de som. Pena que eu estava sem meu celular para fazer essa foto.

Depois desse abre-alas , apesar de morrer de vontade, no domingo não consegui ir ao carnaval. As aulas de Lucca começavam na terça e tinha que comprar algumas coisas, além do que ele tinha um torneio de futebol, era um dia muito cheio de coisas a resolver. Por isso mesmo tive contato com todo o entorno que não o carnaval. Tudo estava sistematicamente preparado para a festa: o metrô operava em esquema especial, com frequência maior de trens , e circuitos de entrada e saída separados nas estações, evitando multidões.  Os ônibus também. Bebidas e comida à disposição para compra em praticamente todas as esquinas; pontos de lixo muito bem demarcados; banheiros químicos públicos para todo lado; casais de policiais desarmados em cada esquina . Tudo muito civilizado, muita gente alegre  circulando  pelo bairro.

A segunda-feira amanheceu com chuva e frio, mas a vontade de estar naquele carnaval era maior. Casaco impermeável nas mãos, uma flor no cabelo e ‘bóra’ encarar a aventura.

Ao virar a rua começamos a escutar o som de uma bateria de escola de samba que acelerou o ritmo do coração dessa paulistana que vos escreve . O ouvido foi farejando o lugar de onde saía aquele som. No caminho os olhos encontraram corpos em formas que não eram brasileiras, mas que se vestiam como nossas mulatas, se desfazendo depois da passarela. O som vinha de baixo de uma ponte, em que um grupo, aquecia os tamburins e se preparava para entrar na avenida.

IMG_3600A avenida não é o sambódromo.  Se chama Ladbroke Grove, e segue um trajeto que corta todo o bairro de Notting Hill, desde a Holland Park Avenue, até a Westway. Foi ali que vi a banda passar,  uma banda só não, foram várias.  O carnaval não acontece só ali, Notting Hill era inteira em festa. Teve escola de samba, grupo de raggae, dança africana, música eletrônica, rap, gente de turbante, de burca, de shorts e camiseta, de coturno, de capa e guarda-chuva,  com flor no cabelo, glitter no rosto, chapéus de todos os jeitos, perucas… cada um na sua expressão multicultural, multi-tolerante, alegria para todos os lados e a chuva caindo: o retrato de civilidade mais bacana que já vi.

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Entre os blocos que desfilaram naquele dia tem um que marquei no meu caderinho ,  a London School of Samba. Quem sabe é aqui que finalmente vou aprender a sambar.

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