Encontros e Desencontros

Este texto estava “cozinhando” aqui dentro de mim desde a minha estada em Sao Paulo. Voltar a uma cidade em que vivemos por um longo periodo (no meu caso, a vida toda) tem um significado grande quando estamos longe.

Ao andar pelas ruas conhecidas do bairro onde moravamos, senti que pisava sobre as minha antigas pegadas, que a minha historia estava ali naquele chao e tive saudade daquela pessoa que fui. Senti amor no abraco dos amigos antigos,

Aproveitei os mimos de mae, e tambem o privilegio de ter alguem para cuidar dos meus filhos enquanto eu saboreava um pouquinho daquela antiga liberdade. Abracei meus irmaos, curti muito meus sobrinhos, me emocionei ao ver meus filhos interagindo com os primos e com os filhos dos amigos que sao como primos. Foram momentos brilhantes onde dava para sentir as memorias sendo construidas, a la Disney: Let the Memories Begin!

Foi um constante encontro entre quem eu sou hoje e a pessoa que costumava viver naquela cidade ha quase dois anos atras. Todos nos mudamos com o tempo, evoluimos, eu espero, mas quando fazemos isto em um lugar diferente o choque pode ser brutal, quase uma nova construcao de si mesmo, onde agente ve com mais clareza as partes que sao do antes e as que sao do agora.

Entao, em um dos dias que estive por la, agendei uma reuniao de trabalho, uma ida ao banco e ainda queria passar em uma loja para comprar umas coisinhas. Ai me senti novamente como o meu “antigo eu”, na vida louca de uma cidade como Sao Paulo.

Pra comecar era dia do rodizio do carro, entao so podia sair as 10hs. Achei que conseguiria passar no banco antes da reuniao que era as 12hs, mas o transito estava caotico e mesmo que eu tenha ido por todas as quebradas que conhecia e mudado de pista umas 500 vezes tentando ultrapassar uns dois carros a cada vez (apenas para ser ultrapassada por estes mesmos no proximo farol), so consegui chegar no lugar da reuniao umas 11:30hs. Quando cheguei la, a pessoa me avisa que estava atrasada, se podiamos adiar a reuniao para as 13hs.

Morrendo de raiva (de mim por nao ter parado no banco e chegado atrasada na reuniao, do transito, do cliente atrasado), resolvi que ia me acalmar almocando ali perto, no novo Eatly. Vou andando, num inverno que mais parece verao, pelas calcadas esburacadas que divido com mulheres bem arrumadas e homens engravatados. O lugar e bonito, mas esta lotado, levo um tempo para decidir o que comer mas sento em um dos restaurantes (vamos combinar que parece um pouco uma praca de alimentacao, mas nas mesas as pessoas tomam vinho branco em “bags” com gelo… vai entender!). O preco nao me assusta demais desta vez. O servico e simpatico e a massa muito boa (coisa que aqui e quase impossivel, combinada entao, jamais vista!). Pego duas filas: uma para pagar o cafe e outra a sobremesa, mas consigo chegar a tempo para a reuniao.

Quando saio, ja nao da mais tempo de ir no banco porque ate chegar na agencia ele ja vai estar fechado, entao vou andando ate o Shopping JK e desta vez, seguem as calcadas esburacadas, mas me chama atencao, nao tem ninguem nelas… estao completamente vazias enquanto o transito esta parado. Concluo: ninguem anda a pe neste cidade. Penso: sera que tenho que ficar com medo de assalto? Concluo: nem os bandidos andam a pe.

No shopping vejo coisas lindas em lojas que so tem no Brasil, mas vejo tambem sapatos e bolsas carissimos e penso em se vale a pena comprar sapato para andar em calcada esburacada (ops, esqueci ninguem anda na rua) e bolsa cara se vc tem medo de andar com ela na rua… Mas quando agente trabalha que nem louca, pega transito e ganha bastante dinheiro, as vezes, parece uma boa ideia…

Nao consigo comprar nada, pois acho tudo muito caro e, socorro, tenho que ir embora, porque ja e a hora do rodizio! Pago uns R$45 de estacionamento (pergunto duas vezes o valor porque acho que nao entendi bem) e volto para a adrelina do transito.

Chego exausta e penso, acho que virei bicho do mato, nao posso mais com esta vida louca da cidade, percebo que troquei o ritmo acelarado e caotico por um ritmo mais repetitivo, porem mais calmo. Os restaurantes descolados por pizza feita em casa e saboreada em volta de uma fogueira. Os mimos caros por uma hora de babysitter. As unhas feitas todas as semanas por unhas feitas uma vez ao ano, quando venho ao Brasil. Nao e melhor, nem pior, e apenas uma nova versao de mim mesma que encontro, quase que surpresa, ao voltar ao que era…

 

 

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