De que cor somos?

Estava eu em um banco da praça ao lado da casa da minha mãe, em Natal, vendo os meninos brincarem nos poucos balanços que não estavam quebrados, quando uma mulher, segurando uma criança no colo, se senta ao meu lado e diz imediatamente:

– Ela é minha filha.

Sem saber bem o que responder a uma afirmação tão categórica, disse:

– Linda a tua filha!

Ela explica:

– Eu vou logo dizendo isso, porque todo mundo pensa que, só porque ela é branca e eu sou negra, que sou a babá e não a mãe.

Observei melhor as duas e realmente, dentro da enorme escala Pantone do racismo à brasileira, digamos que a menina deveria ser uns três tons mais clara que sua mãe. E não pude deixar de pensar em quanto preconceito sofria esta mulher, para que ela se visse obrigada a afirmar a todo desconhecido que sua filha era sua filha.

Primeiro, que alguém ainda se surpreenda que em um país em que somos todos mestiços, uma pessoa tenha um filho com a cor da pele em um tom diferente do seu. Pior ainda. Que alguém ainda dê importância para isto! Segundo, este pensamento de que se a pessoa é negra, logicamente só pode ser um serviçal. Principalmente ali, na pracinha do bairro de classe média. Que embora tenha dinheiro, por ser um espaço público, sofre o mesmo mal do desleixo e do abandono. Mas pela lógica Brasil, uma mulher negra cuidando uma criança mais “clara”, em um espaço de classe média, só pode ser uma trabalhadora do lar.

O racismo é um crime que a mim me afeta especialmente. Lembro-me quando minha mãe me contou que, quando ela e meu pai começaram a namorar, sua família foi contra porque ele era negro. Meu pai era o meu herói. Mesmo que tudo tenha sido superado com os anos, nunca tive com eles o carinho que tenho com a família paterna. E, durante muito anos, tive que ver escrito na sua carteira de identidade que sua cor era parda. Como assim parda?! Pardo era o papel com que éramos obrigados a encapar os livros da escola. Nunca podia ser de flores. Tinha que ser aquele papel horroroso. E meu pai, definitivamente, não era daquela cor.

Também tive que defendê-lo deste odioso “pardo” quando, já adulta, trabalhando em grandes jornais, ambiente em que supostamente reúne pessoas intelectuais e de esquerdas, muitos diziam de forma benevolente:

– Não, você não é filha de negros. Teu pai é moreno.

Por isto chorei de emoção, quando na hora de dormir, os meninos me pediram para inventar uma história. De forma bem intencionada, criei a história de um reino em que todas as cores viviam separadas. Então o príncipe azul se juntou com a princesa rosa para trazer todas as cores para viverem juntas. E Hugo:

– Muito chata esta história!

– Por que?

– Porque cada cor tem seu lugar. É melhor para encontrar-las.

– Mas Hugo, não seria melhor que todas as cores vivessem juntas como as pessoas?

– Todas as pessoas têm a mesma cor.

– Sério? De que cor eu sou?

– Marrom.

– E Maxim? (seu amiguinho filho de russos)

– Marrom.

– E Alejandro? (seu primo adotivo da Guiné Equatorial)

– Marrom.

Hugo, com quase cinco anos, não tem a menor idéia que existe escala Pantone para humanos. E que continue assim.

 

 

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