Cheio ou vazio?

Foi em uma  longa viagem de carro entre Madrid ,onde morávamos, e uma cidade na Toscana para passar um natal inesquecível, que me deparei pela primeira vez com o trabalho do autor dessa escultura . Era o final do ano em que tínhamos saído do Brasil para a Espanha. Primeiro fechamento de um período que nos havia exigido muita força e esforço, muita paciência, mas antes de tudo muita união na nossa pequena familinha. Na viagem veríamos e conviveríamos em outras terras ,que não a usual, com  toda nossa  querida familhona. Viagem comprida, atravessando três países dentro do carro, com tempo suficiente para repassar a vida dos meses vividos à distância: muita coisa para contar da nova fase, muita saudade, ansiedade pelo encontro, e uma vontade enorme de viver  esse momento com os meus.

Depois de uma parada rápida em  Barcelona e vários quilômetros nos esperando ainda pela frente, era hora de descansar quase no meio do caminho, em uma cidadezinha no sul da França. As esculturas  estavam lá, numa galeria da cidade provençal . Como um espelho, elas falavam de mim e de como eu sentia a experiência, ainda caloura, na arte de ser expatriada. Se eu pudesse compraria a família de viajantes. Como não posso , me contentei em ter um catálogo do artista , que ainda guardo na minha caixinha de sonhos. Seguimos viagem.

No ano seguinte em outra passagem pelo sul da França, tivemos mais um encontro.  Agora no verão, sob o sol, bem  lá,  num jardim da Riviera.  E de novo me causou a mesma impressão,  elas eram como  uma selfie de algo que circulava dentro de mim.

Essa semana as esculturas do francês Bruno Catalano  me reapareceram.  Dessa vez na minha timeline e algumas vezes repetidamente: seja  pelos likes, compartilhamento ou comentários de alguns amigos da rede social. A legenda da foto de uma de suas esculturas que circulou na web dizia : “Genial escultura do artista francês Bruno Catalano, que simboliza o vazio que cria o ver-se obrigado a abandonar sua terra, sua vida, sua gente…por qualquer razão”.  Necessário pontuar que, no nosso caso,  não fomos obrigados a nada. Nossas razōes para imigrar foram e são voluntárias.  Onde me identifico com  o trabalho de Bruno Catalano, não coincide com esse vazio que alguém descreveu nessa legenda, principal razão  pela qual  apareceu  tantas vezes na minha timeline .

Ao contrário do vazio me vi preenchida, redesenhada pelas paisagens, pelas pessoas e pelos lugares onde vivi. A vivência foi e é tão visceral que aquela Ana que saiu do Brasil há mais de 6 anos , para não dizer que não existe mais,  até hoje sofreu e continua sofrendo uma grande metamorfose . Se me permite Raul Seixas, pareço mais com uma metamorfose ambulante.

Assim como as esculturas de Catalano,  não me misturo na paisagem, porque sou diferente, sou estrangeira, e acredito que sempre serei mesmo. Porém, para mim, isso não é triste.  Eu adoro explorar as muitas alternativas que o ser estrangeira me proporciona: a possibilidade de não conhecer sem vergonha, a de aprender sem pudor, de ter curiosidade e se sentir atraída ou repelida por aquilo que realmente chama minha alma. É  libertador. Por outro lado,  não se pode negar que existe a nostalgia, a saudade. E  até nesse ponto  não posso mais  dizer que essa falta  tem um único endereço.  De cada lugar por onde passei, é como se uma parte do lugar viesse comigo, e uma parte de mim tivesse ficado também. Outra vez, isso não me gera tristeza ou vazio. Ao contrário me enche de alegria por ter tido a chance de experimentar tanta riqueza, e ter tantos lugares e pessoas diferentes por quem voltar. Não há mais como tirar essas marcas de mim. Por isso costumo dizer,  não me sinto expatriada, me sinto multipatriada.

Uma coisa é certa, a experiência do viver é muito pessoal e única, independente de estarmos longe ou não de nossa terra.  A vida que você leva, é a vida que leva você.  Não tem nada de errado em sentir-se vazio diante de uma experiência, isso só demosntra que tem bastante espaço para ser preenchido. Temos  só que buscar o que realmente faz sentido para esse  lugar e  torná-lo bonito e agradável.

O mesmo copo pode estar meio cheio, ou meio vazio , sempre. E não tem nem certo nem errado nisso, são só  diferentes formas de se ver a mesma coisa. A beleza e o conforto pode estar em qualquer das duas opções.

 

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