A lição de Gru

Mais um post da nossa convidada Fernanda da Escóssia, que topou compartilhar suas aventuras da maternidade com a gente. Nesse texto, ela fala sobre a beleza da adoção. 

A lição de Gru

por Fernanda da Escóssia

Na minha longa carreira de espectadora de filmes infantis, gosto de muitos, fico aborrecida com uns poucos, esqueço vários e amo de paixão alguns inesquecíveis. Vejo a mim e a minha família em muitas histórias e frases, seja no mote “continue a nadar” de Dory em “Procurando Nemo” ou na comemoração do vovô maluquinho de “A Família do Futuro” diante do erro do neto _ “Parabéns, você fracassou!”, elogia ele_, e esta é a frase favorita dos que não têm medo de errar. Escrevi sobre esses dois filmes em outra coluna, publicada na página Tempo para Viver.

MER_gruFilmes que falam de adoção mexem muito comigo, e será difícil falar deles sem entregar o final. Em “Meu Malvado Favorito”, o malvadíssimo Gru _ autor de uma das pérolas que uso nos meus momentos de cinismo, “Destruí acidentalmente por maldade”_ luta, mas não consegue resistir aos encantos das três irmãs órfãs que ele adotou por puro interesse, para conseguir entrar na casa de seu oponente. Em um momento do filme, as meninas são devolvidas ao orfanato, meio contra a vontade de Gru, que, com medo de reconhecer o amor, não tem forças para reagir. E penso em outro filme, “Inteligência Artificial” (Steven Spielberg), em que o androide criança é devolvido à fábrica quando o filho biológico acorda do coma. Esse só recomendo para corações muito fortes.

Nunca adotei crianças. Pari duas. Mas penso que devolver um filho, biológico ou do coração, é assim como rejeitar uma chance que a vida nos oferece de ser feliz.

“A Família do Futuro”, de novo, e “Kung Fu Panda 2” trazem outras lições. No primeiro, o jovem Lewis consegue voltar no tempo e vê o momento em que a mãe o deixou no orfanato. O que ele faz? Impede o abandono para ter a chance de uma vida ao lado da mãe biológica? Ou deixa a vida seguir aquele curso, optando por ficar com a família que o acolheu? Claro que o bom seria que pais nunca abandonassem filhos, e claro que quem deixa um filho no orfanato tem lá suas razões. Tento não contar, mas a escolha dele ensina muito.

Em “Kung Fu Panda 2”, o herói Po, um panda adotado por um ganso, vive várias aventuras e começa a se lembrar do momento em que foi separado de sua família. Aos poucos entende que a família não o abandonou por desinteresse. Pelo contrário, sua mãe morreu tentando defendê-lo. Quando ele volta para casa, conta ao pai ganso que se lembrou de tudo e que agora sabe quem é. E quem é você?, pergunta o pai. A surpresa emocionante é a resposta de Po, mas isso eu não vou mesmo contar.

Adotar não muda só a vida da criança. Muda principalmente a vida de quem adota. É a transformação que ocorre com Gru, e, sim, ele é meu malvado favorito mesmo. Nem Gru resiste a uma criança que precisa de amor.

* Fernanda da Escóssia é jornalista. É mãe da Ana e do Daniel e tem uma enteada, Maria. É potiguar, cresceu no Ceará e vive no Rio de Janeiro há mais de 20 anos. Acredita no amor e nos livros para ajudar a cuidar de crianças. Ah, já é tia-avó quatro vezes.

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