A foto que nos fez chorar

Já estávamos todos deitados, luzes apagadas, quando Hugo entrou no nosso quarto, me acorda e pergunta:

– Mamãe, pessoas malvadas existem de verdade?

– Existem, querido. Mas eles sempre perdem no final. Sempre!

Pois é, andei mentindo muito esta última semana. Não quero super proteger os meninos, mas tudo tem limite. Então, tive que dizer:

– Não, Hugo. O menino está dormindo.

– Mas ninguém dorme na praia! _ Ele contesta.

– Mas é que o menino estava muito cansado e dormiu. _ Menti descaradamente.

Depois disso, decidimos abolir as notícias da televisão quando as crianças estiverem por perto. Não só por eles, mas também para a saúde dos nossos corações, porque não conheço ninguém que não tenha chorado com foto do menino sírio, morto afogado ao tentar chegar à Europa. Não é questão de evitar a realidade, mas do que podemos fazer para tentar ajudar a paliar esta situação calamitosa: a dos refugiados que fogem da guerra, do Isis, do Boka Haram, da fome, da miséria. Como li em algum lugar esta semana, ninguém colocaria seus filhos em um barco, se a água nao fosse mais segura que a terra. Uma situação que se prolonga há muito tempo, mas que foi preciso uma fotografia de uma tragédia para que tivesse a atenção que merece.

Aqui tentamos ajudar da maneira mais simples. Colaboramos financeiramente  com os Médicos Sem Fronteira, uma das ONGs que atuam nos resgates no Mediterrâneo. Não é muito, cada um dá o que pode, mas tudo ajuda.  Além disso, assinamos todas as petições para que a Espanha receba mais refugiados do que pretendia o governo aceitar inicialmente. E Zaragoza já uma das cidades que se inscreveu para acolher uma parte dos refugiados. Enfim, sei que nao é muito, mas são pequenos gestos para tentar pelo menos sair da inatividade e da indiferença. O menino Aylan, aquele da foto, merece.

E nós pais já temos uma grande tarefa nas mãos: criar filhos para um mundo melhor. Sou muito otimista? Provavelmente. Mas a educação que damos tem uma enorme influência sobre o comportamento dos nossos filhos. Em como eles vêem o mundo. Não existe dever maior que educar para a solidariedade e para a igualdade.

Neste processo educativo, contamos aqui com a colaboração da escola pública. Muitas vezes já me questionei se era o “melhor” colégio que poderíamos dar para nossos filhos. Pensando com os valores do tipo: “quem eles vão conhecer, para que no futuro sua rede de contatos lhes possibilite um melhor posto de trabalho”, certamente nao é a melhor escolha. Mas pensamos, eu e Nacho, que a educação vai além disso. Não é que não acreditemos que isto não seja importante, também é. Mas pensamos que esta não deveria ser uma preocupação exclusiva.

Na próxima quinta-feira, Carol vai começar sua caminhada escolar. Serão 19 crianças de três anos na sala. Ela vai conviver com meninos e meninas de origem marroquina, um argelino, um chinês e um equatoriano. Além dos filhos de pais espanhóis, é claro. Conviver com culturas diferentes para repeitar e aprender com a diferença. E no fundo aprender que a diferença não existe.

 

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