A arte imita a vida.

Quem se depara no meio da galeria Serpentine Sackler, aqui em Londres, com essa imagem, é capaz até de perguntar onde estão os pais dessa criança largada no carrinho? A primeira vista não imagina que é uma escultura de poliéster e fibra de vidro de Duane Hanson, um gênio do hiper-realismo. Elas são tão reais que veias e até hematomas parecem de verdade. Chegam a ser fantasmagóricas e  a sensação é que só lhes falta a alma. Lucca também interpretou assim, comentou comigo, depois da visita, o quanto incrível era o trabalho do artista. Mas tinha uma coisa que a ele incomodava: todas aquelas pessoas tinham o olhar perdido, sem expressão.

Porém, não é isso mesmo que o artista quis retratar? O tema de seu trabalho sempre gira em torno de pessoas comuns, que se tornam invisíveis no dia-a-dia, mas que são extremamente importantes para todos nós: são o pintor, a vendedora na feira de artesanato, os pedreiros, a moça da limpeza, crianças brincando, o bebê dormindo no carrinho.

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Durante 40 anos ele retratou trabalhadores e americanos anônimos, em momentos triviais de sua rotina, transformando esses momentos em escultura. Um visionário para os tempos de hoje. Na contra-mão da vida virtual , em que todo mundo vira um pouco celebridade da sua própria história, o mundo real aqui fora te trata de uma outra maneira. Quantas vezes não me senti invisível, sem que isso fosse um súper-poder? Sempre a estrangeira; mais uma que cumpre funções importantes, mas sem valor; outra no meio da multidão; uma voz a mais no coro de tantos . Quem nunca?

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Desperto. É para isso que serve a arte: imitando a vida ou por ela sendo imitada.

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A exposição de Duane Hanson na Serpentine Sackler Galery é gratuita, não é muito grande, mas vale muito a pena. O espaço está aberto de terça a domingo e se puder ir, corre, porque estará por lá só até dia 13/09/15. Fica a dica.

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