Sobre terremotos e furacões

Durante os 4 anos que viví em Lima, ouví, principalmente dos peruanos, a seguinte pergunta: “Tienes lista la maleta del temblor cerca de tu puerta de salida?” (Tem a sua “mala do terremoto” pronta na sua porta de saída?). Dentro da mala, nos recomendavam ter sempre algumas mudas de roupa, passaportes, algum dinheiro, remédios, lanterna, apito (em caso de soterramento), mantimentos não perecíveis, água e esperança.

A grande verdade é que nesses anos mesmo vivendo num país com risco de terremoto e tsunami, o que mais me sobrava era a esperança. Alguma voz sempre me dizia que jamais iríamos passar por um temblor muito forte. E também sempre tive a sensação de que fazer a maleta do temblor e vê-la todos os dias estaria de alguma forma sempre pensando nisso e consequentemente o medo viraria parte do meu dia-a-dia. E eu queria aproveitar ao máximo meu período naquela nova fase da vida.

A mala mesmo chegou a ser feita uma única vez, no nosso primeiro ano, quando meu primeiro filho tinha poucos meses. Ali, minha maior preocupação era mesmo deixá-lo sem fraldas e água caso tivéssemos que deixar o apartamento por alguns dias. O leite estava no peito, então estava tudo seguro em relação a comida. Algumas roupas para ele, antitérmico, apenas uma muda para mim e para o Felipe, água e algumas bolachas e atum para nós. Me dava nervoso pensar em comprar um apito. Passados alguns meses, me dei conta que precisava rever a tal maleta. As roupas do Guigo já nem cabiam mais, as nossas já haviam mofado (umidade lá causava estragos), as comidas já haviam vencido e a água eu já tinha tomado quando um dia acabou em casa e eu acabei usando. Enfim, a maleta não serviria para nada. Desisti dela e deixei de pensar nos temblores. Decidi viver sem pensar nisso.

Não ter mais a mala da segurança na minha porta podia até ser chamado de desleixo por alguns, mas eu chamo mesmo de esperança. Esperança de que ela jamais seria necessária, portanto não precisaria tê-la ali diante dos meus olhos, me lembrando todos os dias que vivíamos numa zona de risco.

Passamos por alguns temblores sim, senti a terra tremer algumas vezes debaixo do meu pé, e ouvi o barulho das coisas e os vidros da janela dentro de casa batendo (o que na verdade era o pior para mim, aquele som) com certo medo. Mas nunca me apavorei e nem senti necessidade de evacuar o local onde estava, apenas buscava com os olhos a zona de segurança sísmica com meus filhos agarrados nos braços.

Passados esses 4 anos, saímos dos terremotos e viemos para os furacões. A grande diferença é que, no caso de furacões, podemos receber alertas com alguns dias de antecedências e estarmos preparados para passar por ele com certa segurança.

Vivemos agora em Santo Domingo, na República Dominicana, Caribe. Com exceção de Aruba, Curaçao, Los Roques e Barbados, que estão fora da rota dos furacões, a possibilidade existe entre os meses de Junho a Novembro. Só em 2004, 9 furacões passaram pelo Caribe, e 4 deles atingiram terra firme, inclusive Punta Cana.

Há alguns dias recebemos o alerta de que uma tempestade “batizada” de Danny se formava no Atlântico e avançava na nossa direção (Caribe), com a possibilidade de chegada como furacão. Estamos acompanhando, mas o prognóstico atual, é que ela está perdendo força e que chegue na próxima quarta-feira como forma de tormenta, o que nem é de todo mal, já que o país está precisando de chuva.

Essa semana com esse alerta me pus a pensar como difícil é lidar com os receios e medos vivendo longe da família e da sua terra natal. Estar num país zona de qualquer risco com filho pequeno, pior ainda.

Mas como o furacão que passa, o medo se vai, a esperança chega e com ela aquela mesma sensação de que eu tinha em Lima, a de que jamais passaremos por algo tão trágico.

A conclusão que chego que difícil mesmo é lidar com os medos que nascem com a maternidade (perda de um filho, adoecermos entre tantos outros), e isso independe de país, pátria ou raça. Mas isso é papo para outro post. Seguimos online acompanhando o Danny e com a certeza, de que no meu no próximo post, apenas a notícia de que uma chuva forte veio para trazer a água que o país está precisando. Peace and faith.

 

Hurricane Approaches Caribbean

Hurricane Approaches Caribbean

 

 

 

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