Pipas no céu de Santa

Meninos e Pipas - Cândido PortinariW, 14 anos, é o segundo filho de uma amiga, que tem mais três meninos. Moram todos numa casinha em Santa Teresa. Ela  trabalha como cozinheira de um escritório. W queria sair da escola no meio do ano e parar de estudar. Me ofereci para conversar com ele e ver se eu poderia de alguma maneira ajudá-lo.

Marina, minha filha de 13 anos, várias vezes também desejou sair da escola. Rodrigo, 9 anos, idem. Ele porque sempre quis ser jogador de futebol e achava que para isso precisava treinar e treinar e não ficar dentro de sala de aula. Marina porque ora estava mais desenturmada, ora tinha preguiça. Pensei que de alguma maneira saberia como conduzir o papo com W.
W não sabe o que quer fazer da vida. Quer sair da escola, porque é chata e desinteressante. Quando perguntei o que ele faz bem, rápido e sagazmente, disse: “Durmo que é uma beleza”. Está ligado nos cortes de cabelo — o dele é bem batidinho do lado e mais alto em cima, com gel deixando tudo no lugar desejado –, tem estilo, usa uma correntona prateada no pescoço, sabe que é magro demais para jogar basquete, gosta de games mas não tanto de mexer em computador. Tive uma fraca esperança de que poderia indicar um livro para ele. Não é possível que eu tenha sido a única adolescente no mundo que se apaixonou por livros quando nada parecia ter sentido, quando todas as meninas já beijavam na boca e eu me apaixonara perdidamente por “Um certo capitão Rodrigo” (Érico Verissimo).
“Odeio ler. Livro não dá né?”
Então como você passa o tempo quando não está dormindo?
“Soltando pipa”. Eu gosto de soltar pipa. Vira tipo uma competição entre os meninos. Não sou o melhor, mas sou muito bom.”
Foi aí que me vi sem ter como puxar uma conversa com ele: não sei nada de pipa. Aliás, que pretensão a minha. Conhecendo-o pela primeira vez naquele dia, que poder supus que teria para convencê-lo a não sair da escola?
“Queria muito conversar com você sobre pipa, mas não sei nada deste assunto. Só que tem cerol, que é difícil de soltar, que também pode ser chamada de papagaio e que pode matar os motoqueiros”, disse tão francamente que o comovi.
“Ah pode, se pegar no pescoço mata mesmo. Mas eu solto pipa lá no alto do morro, não passa moto ali. E olha, se quiser, sugere um livro. eu tento ler dez páginas. Se não gostar te devolvo”.
Agora estou às voltas com essa! Feliz da vida com o desafio e cavucando a cabeça atrás e um livro “irado” para um menino de 14. Um livro que pode nos unir como pipa e vento. Alguma ideia?
(Ah, eu já pensei no “O caçador de pipas”).

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