Ouvir e dizer “não”, um aprendizado de toda a vida

Reproduzo aqui o artigo de Gabriel Chalita*, publicado hoje na Folha de S. Paulo. Fiquei bastante emocionada ao ler porque fala do que eu acredito que é educação de verdade.

Gostar de viver

Içami Tiba viveu ensinando vidas a gostarem da vida e dizia que não há manual que organize as ações dos pais nas relações com os filhos

Conheci Içami Tiba apresentado pelo seu filho André, meu aluno na PUC. Foi um almoço agradável. Falamos de temas recorrentes no complexo universo da educação. Tiba teve uma formação sólida. Era um cientista respeitado. Médico, formado pela USP, especializou-se em psiquiatria no Hospital das Clínicas da USP, onde foi professor.

Tinha a preocupação de escrever e falar com simplicidade o que realmente importa nas relações humanas. No almoço, falamos do texto que estudávamos em classe: “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles. Nicômaco era filho do filósofo e ganhou do pai um tratado sobre o bem-viver, a ética, a felicidade.

Na obra, Aristóteles disserta sobre o conceito do bem e a importância da educação para que se encontre a aspiração da vida. A razão e a emoção compõem a tessitura que nos forma no dia a dia. O hábito nos molda. Aprendemos a tocar cítara tocando cítara. Aprendemos a ser honestos sendo honestos.

Quantos séculos se passaram e continuamos desafiados a educar para o bem. A buscar o equilíbrio entre o sim e o não. Tiba insistia na tese de que é muito mais difícil aos pais dizer “não” do que “sim”. Mas o “não” é essencial. Ouvir “não” é um aprendizado para toda a vida. “Não” ao que violenta a nós e ao outro. “Não” à mentira, mesmo a que nos leva a patamares superiores na escala do aplauso social. “Não” aos excessos e a muitos de nossos desejos que podem nos desviar das escolhas corretas rumo à nossa aspiração.

A vida nos proporcionou muitos outros encontros em tantos eventos de educação por esse país afora. Içami Tiba tinha um humor inteligente. Era um homem que, decididamente, gostava de viver. Disse-lhe isso, certa vez, e ele sorriu aprovando minha conclusão: “Como não gostar?”. E prosseguiu: “Sou apaixonado por minha mulher, tenho um família linda, faço o que gosto e ainda ganho por isso”. Tem razão. Como não gostar de viver?

Tiba viveu ensinando vidas a gostarem da vida. Dizia que não há um manual que organize todas as ações dos pais nas relações com os filhos, seu tema preferido. Há pistas. Há troca de experiências. Cada tempo tem sua dificuldade e seu sabor.

Os educadores, de hoje, debruçam-se sobre as novidades incorporadas ao cotidiano: novas formações familiares, novos mecanismos de acesso às informações, novas formas de relacionamento. Incorporar esse repertório nos ajuda a continuar a fremente aventura de curiosidade tão essencial a quem educa.

Fui ao velório de Içami Tiba prestar minha homenagem. Abracei sua mulher que, entre lágrimas de saudade, confidenciou-me: “O que me conforta é saber que ele conseguiu o que sempre sonhou: contribuiu para melhorar o mundo”.

Cada ser humano é um mundo de possibilidades. E nós, educadores, não podemos descansar enquanto não abrirmos as janelas para que cada um desenvolva seu talento. O que propicia o protagonismo de alguns não é o fato de terem mais ou menos inteligência, tese ultrapassada. É o de terem mais ou menos possibilidades de desenvolvimento dessas inteligências.

Afinal, se gostamos de viver, gostamos dos que vivem conosco e, como dizia o mestre, “quem ama, educa”. Para o bem, para a felicidade.

 

 

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