Onde fica a nossa casa?

Há algumas semanas, um amigo me enviou um vídeo sobre o que se convencionou chamar de “crianças de terceira cultura” (third culture kids). São crianças que passaram uma grande parte de sua vida em culturas diferentes das de seus pais. Já havia lido alguns artigos sobre o assunto, mas em geral eles abordam o desenvolvimento da criança, como se desenvolvem e são capazes de adquirir duas ou mais línguas, e ainda os pros e contras a vida no exterior.

No entanto, esse vídeo explora o tema de um ponto de vista que eu nunca havia considerado antes: a nossa casa, o nosso lar. Onde é “casa” para crianças que viveram em outros países a maioria de sua vida? Onde eles realmente se sentem em casa? Essa é uma questão que eles conseguem responder facilmente? Se não for, quais são as implicações disso nas personalidades das crianças, nas suas identidades? Eu fiquei intrigada.

Também fiquei muito tocada com as entrevistas. Afinal, ali pude ver minhas crianças, e até mesmo me ver retratada ali. As confusões da língua, as armadilhas culturais e outras complicações que têm nos desafiado sempre.

Decidi, então, perguntar às meninas onde era a casa delas. Seria na cidade ou no país em que elas nasceram? Uma nasceu em Berkeley, na Califórnia, e a outra em São Paulo. Seria a casa delas na cidade onde moram os avós? Portanto, Rio de Janeiro. Ou seria Joinville, em Santa Catarina, onde morávamos antes de virmos para a China? Será que elas consideravam a China a casa delas? Quando nós falamos que estamos indo para a casa nas férias, tem o mesmo significado para nós e para elas?

Perguntei a elas no jantar. Não tinha nenhuma expectativa; qualquer resposta era possível. Mas, eu não estava preparada para a que eu recebi.

“Mamãe, nossa casa é qualquer lugar onde a gente morou. São Paulo, Joinville, França, Estados Unidos… Todos esses lugares são a nossa casa”, disse a Sofia. Elisa ainda acrescentou “não se esqueça do Rio porque o Bruno [nosso cachorro] está lá com a vovó”.

Ali estava. Claro e simples. Pelo menos para minhas meninas, não há nenhuma grande questão em ter várias ‘casas’ – pelo menos por enquanto é assim que elas se identificam.

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