Novo olhar sobre meu velho

Mês passado meu pai veio ficar conosco por três semanas. Faziam três anos que ele não vinha nos visitar, apesar de nunca passarmos mais de um ano sem nos ver, desde que saímos do Brasil. Quando ele me disse que viria mesmo, comecei a bater  palmas e  dar pulinhos do lado de cá do Skype, como fazem as focas dos parques aquáticos quando ganham peixe.

Dali para frente, passei a sonhar como seriam nossas férias. Desenhei e apaguei na minha cabeça muitas vezes roteiros e coisas que gostaria de fazer com ele, Lucca e Miguel. Até que decidi que não queria programar muito, e que simplesmente ia ser maravilhoso: queria que ele visse e experimentasse coisas novas, mas também coisas velhas, que desse muito tempo e espaço pra risadas e até pra brigas, como numa convivência normal. Mas queria aproveitar: ele, a chance de estarmos juntos, o avô que ele é, o sogro, o pai, o amigo, o tempo, a vida.

IMG_3354No dia seguinte que ele chegou em Londres, fizemos um roteiro clássico: Big Ben, Parlamento, Tâmisa, London Eye, Westminster… Na volta para casa , Hyde Park. Como estávamos cansados, e eu preocupada com ele e seus 75 anos para cima e para baixo, propus: pegamos uma bicicleta de um lado do parque, atravessamos por dentro dele, e deixamos do outro lado, mais perto de casa. “Topo”, ele disse. E subiu na bicicleta, meio que procurando o ponto de equilíbrio. Um pouco apreensiva disse para ele seguir na frente com Lucca que eu ficaria atrás, dando cobertura. O começo foi meio preocupante, tenso. Além andar no lado contrário na ciclovia ( aqui bicicleta segue a mesma regra dos carros) , às vezes via uma titubeada do meu véito sobre as duas rodas. Mas, em 10 minutos pedalando na magrela, percebi que seus ombros relaxaram e o sorriso se abriu com o vento que batia no seu rosto, enquanto as rodas deslizavam pelo parque.

Quando chegamos do outro lado e deixamos as bicicletas, em meio a um riso maroto, ele me confessou:

– Fazia quase de 40 anos que eu não andava de bicicleta.

Esse é meu pai. Tentei resgatar  a memória de ver meu pai curtindo a bike, mas não consegui.

A informação mexeu comigo e na hora percebi algumas coisas. A primeira que me veio a cabeça foi que talvez eu tivesse sido irresponsável, que eu não tinha enxergado o risco na minha proposta. Porém, logo em seguida pensei que vejo meu pai como um igual em energia, que brincar não tem idade, e que é verdade, acabava de comprovar, nunca se esquece como é andar de bicicleta. Ao mesmo tempo tive uma certeza: é uma delícia viver certas coisas como se fossem pela primeira vez com meu velho. Se tem algo que vai ficar para sempre daquele dia, vai ser esse momento e a alegria de todos por vivermos isso juntos.

A bicicleta foi só a primeira das aventuras que pudemos viver em família nesse encontro. Sempre com o mesmo espírito da brincadeira, teve mergulho no mar, experimentar sabores completamente novos, dias de praia que para os padrões de brancura dele, o garparzinho máster que conheço, não seria aceitável, noites de pocker apostados com casca de pistache, ele fumando escondido, trocas de receitas, e vários outros eteceteras que não caberiam aqui.

Ah e brindes, muitos, em todas as refeições. A que? A tudo e a nada. À vida, simples e maravilhosa. Ou a essa rotina, que tanto nos faz falta. Saúde!

 

 

 

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