Medos

Tinha nove anos quando terminei a escola primária em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, e comecei o antigo ginásio em uma escola em outro bairro, Campinho,  o temido colégio Pentágono. Não era perto. Demorava uns 40 minutos de ônibus. Minha mãe me levou na primeira semana e, quando aprendi o caminho, passei a ir sozinha. Às vezes meu pai me buscava, se não, voltava com outros colegas do bairro, que frequentavam a mesma escola. Era o normal nos anos 80. Crianças de 10 anos eram vistas como perfeitamente capazes de se locomover em uma cidade grande. Com 12 anos já podia ir com as amigas ao cinema em Madureira. Vimos todos os agora clássicos oitenteros: De volta para o Futuro, Alien, o Resgate,  e uma longa lista de etcs. Não tinha medo. A única coisa que me assustava eram os bate-bolas no Carnaval. Fora isto, a cidade era um lugar para ter cuidado, mas não era temida. Muito pelo contrário: quanta aventura para contar!

Lembrei disto por dois excelentes textos que li há pouco tempo: das maravilhosas Flávia Oliveira e Eliane Brum. Se você não leu, não deixe de ler Os Adultos Falharam  e  Mae, onde dormem as pessoas marrons?. Reflexionam sobre o medo e como as crianças reagem à vida atual na cidade grande. Crianças que nunca caminharam pelas ruas. Meninos e meninas que não conhecem o mundo fora de seus muros protegidos e por isto mesmo sofrem de pânico, crises de ansiedade, quando são obrigados a sair. E fiquei pensando em que momento a cidade deixou de ser um lugar de aventuras, para se transformar em algo que assusta nossas crianças? Somente a  escalada violência explica esta mudança? Ou tem mais motivos que não ousamos comentar?

Não sou ingênua, conheço minha cidade. Como jornalista já vi o pior lado do Rio de Janeiro. E como qualquer carioca, também adotei novos hábitos de proteção: não andar sozinha à noite, janelas do carro sempre fechadas, enfim, o básico. Provavelmente não permitirei que meus filhos andem de ônibus sozinhos quando tenham 10 anos, mas não gostaria que eles tivessem medo de andar pelas cidades do Brasil, da mesma forma que andam na Espanha. E por isto, quando vamos de férias: andamos e andamos bastante. Meu único pânico são os carros que não param no sinal vermelho. Tenho que agarrar forte a mão dos dois, pois eles têm uma enorme confiança em que os carros vão parar. Isto é o mais difícil.

Aqui em Zaragoza, tento exercitar a independência dos dois sempre que posso. Hugo, aos quatro anos e meio, já é um excelente ciclista. E nestas férias, começamos a deixá-lo ir pedalando até o Parque del Agua, que está a pouco mais de um quilômetro de casa. Eu vou na minha com a Carol na cadeirinha e ele vai na dele. Ótimo, porque temos ciclovia durante todo o caminho, mas mesmo assim temos que atravessar quatro ruas. Ele espera pacientemente o sinal verde para bicicletas e vai sem problemas, todo orgulhoso. Eles não temem a cidade. Estão acostumados a caminhar, pegar ônibus, bonde, bicicleta… gostam dela, é o seu lar. Por que no Brasil deveria ser diferente?

Precisamos de cidades mais amistosas para nossas crianças, sem nenhuma dúvida. Mas creio que também precisamos voltar a exercer nosso direito a desfrutar das nossas ruas. Talvez assim mudemos a percepção que temos dela. A cidade é nossa e ninguém tasca.

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