Licença-maternidade estendida é lindo. A hora da volta também vai ser?

maefilhoA empresa norte-americana Netflix anunciou essa semana que todos os funcionários terão agora licença-maternidade e paternidade remunerada de até um ano. O benefício também passa a ser estendido aos casos de adoção. A iniciativa é muito boa e acompanha os benefícios que a turma do mundo tecnológico precisa oferecer para segurar e comprometer seus preciosos recursos humanos. Com certeza vai provocar ações semelhantes em pares e concorrentes no mundo corporativo. Mas criar um ambiente para que exista essa flexibilidade não é tão simples, nem começa a valer só criando o benefício e a liberalidade.

Tive três filhos em empresas diferentes e com regras diversas para a licença e a remuneração. E as situações que vivi fazem com que eu defenda que esse ambiente acolhedor seja cuidado não apenas com o prazo estendido, mas também nas políticas de retorno ao trabalho para mães e pais. Hoje, no Brasil, temos a lei que nos permite ficar seis meses em casa no caso das mães empregadas pelo regime da CLT.

Quando tive Danilo há quase 18 anos a licença era de quatro meses. Eu tinha 26 anos, trabalhava numa grande revista, precisei entrar de licença antes do tempo pelo ritmo estressante de trabalho que levava e, por isso, perdi um mês com ele depois que nasceu. A chefia não me permitiu tirar as férias já vencidas junto da licença, uma prática comum nas empresas brasileiras.

No meio dessa desgastante negociação, recebi uma proposta para mudar de emprego e não pensei duas vezes. Fui trabalhar num horário pior, saía por volta das 22h do jornal, mas ao menos ganhei mais três semanas com meu primogênito. De qualquer forma, a volta não foi fácil. Emprego novo, pessoas diferentes, novas rotinas. E um bebê pequeno em casa, ainda mamando e acordando de madrugada.

Lucas nasceu quase cinco anos depois, eu era editora de economia de um site de notícias, jornalismo em tempo real. A licença ainda era de quatro meses, mas a chefia ali entendia a importância desse momento na vida de seus funcionários. Fiquei quase seis meses com ele em casa, somando folgas e férias. No entanto, a volta não foi menos desgastante e difícil. Meu bebê já era maior, dormia mais, mamava menos, mas o cenário no ambiente de trabalho era completamente diverso de quando saí. Novas pessoas, novas estruturas, mudanças econômicas, um novo governo. Levei algumas boas semanas para me reencontrar naquele espaço. Felizmente, pude contar com uma liderança tranquila, que entendia bem isso e me apoiou.

Em 2010, quando Helena nasceu, a lei que estabelece os seis meses de licença já estava em vigor e fiz essa opção. Como também tinha férias vencidas, consegui retornar sete meses depois. E encontrei um mundo totalmente diferente. A empresa passava por muitos processos de mudança e meu retorno foi estressante. Minha área tinha encolhido e eu me sentia deslocada, sem função, sobrando. Ao compartilhar com uma liderança esse sentimento, numa tentativa de receber alguma ajuda para superar esse momento, cheguei a ouvir: “Mas eu nem sabia se você ia voltar, como poderia pensar nisso? A empresa continua”.

Esse é o ponto. Óbvio que a empresa continua, o negócio precisa seguir, apesar das vidas de seus funcionários. Mas os profissionais também não são mais os mesmos, também seguiram adiante. Muitas de suas prioridades de vida mudaram. Não à toa, muitas mães não retornam para o mesmo emprego, mudam de rumo ou simplesmente decidem dar um tempo até os filhos crescerem. Ou pior, quando retornam a empresa já não enxerga lugar para elas, são dispensadas assim que a lei também permite.

vaivemPor isso, é lindo, parabéns Netflix e todos os demais, mas, por favor, não basta ampliar o tempo da licença. É preciso que o ambiente também esteja preparado e pensado, para essas ausências e retornos. Uma mãe e um pai que decidem se ausentar por um tempo para ficarem com um filho após o seu nascimento ou adoção merecem ser valorizados e, ao retornarem, terem apoio para continuar em frente, contribuindo para o negócio. Precisa ser uma política, uma mudança cultural e não apenas show off, marketing. Será que isso também está sendo planejado? #Ficaadica.

 

 

 

 

Comentários

  1. Muito bom Raquel! A Espanha é dos últimos paises que tem uma licença pequena, de apenas quatro meses. Um horror! E o pior, as maes podem ser demitidas neste período. O país ainda tem muito que avançar neste sendito.

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