Ganha/Ganha.

Competir, ganhar, destruir, marcar , são todos verbos usados com frequência em casa . Não só pelo fato de eu estar rodeada por dois exemplares humanos do sexo masculino durante boa parte do dia, mas também porque eles são loucos por esporte , como praticantes, como torcedores e expectadores.

Desde que eu trabalhava com projetos sociais para crianças e jovens, a estratégia que eu acreditava ser a mais eficaz para o desenvolvimento integral deles era a educação pelo esporte. Mas esse foco na performance e na história de um ganha e outro perde, não acho legal.

Juro que eu tento trazer a questão para um outro patamar entre os meus; o da colaboração, do respeito , da aprendizagem. Mas parece que a competição é mais primata do que  os meninos  possam racionalizar. Dizem que filho vem mesmo para testar a gente, não é? Pois bem, nessa coisa da competição eu sou voto perdido, anulado, massacrado, destruído , nocauteado. E o pior é que quando se ganha , ele chega em casa o super-herói salvador do universo. Agora, se ele  perde, aí é o fim do mundo. Vou confessar, é difícil, é intensidade demais.

O tênis, por ser um esporte individual, é ainda pior que o futebol. Temos tido algumas discussões sérias sobre  ética na postura de ganhar e perder.

Quando Lucca chegou em Londres esperou na fila para poder entrar em um clube público para treinar tênis. Mostrou seu valor e conquistou uma vaga no segundo time do clube. Algumas vezes joga até representando o primeiro time em torneios, e mesmo o treinador achando que ele tem nível para treinar com o primeiro time, não pode. Por que? Meritocracia , traço da cultura anglo-saxã:  para treinar no primeiro time  tem que ter ranking. E para ter ranking precisa ganhar torneios da LTA ( Associação Inglesa de Tênis), individualmente. Como somos relativamente novos em Londres, ele teve que começar do zero com o ranking dos torneios. Tenho acompanhado Lucca há mais de 2 meses em jogos para ganhar ranking: ambiente propício para as tais discussões da tal da postura ganha/perde.  Meu  limite foi eu sair da quadra e não querer mais ser cúmplice em uma partida em que ele destruía sem piedade o adversário…

– Lucca, pega leve! Coitadinho do menino tá até triste….

Ele enfurecido em alta voz me responde:

– Você não entende nada de tênis mãe!

– Posso não entender de tênis, mas entendo de respeito. Quando terminar o torneio, estou te esperando no café.

Bati em retirada.

O bom é que o mundo gira… e no meio de uma partida seguinte ele veio correndo no café:

– Tô perdendo mãe, o menino está sendo pouco honesto, preciso de você na quadra comigo.

Nada como aprender com a vivência.

Na quarta-feira passada vi com meus próprios olhos o esporte mostrando todo o seu potencial educador com meu filho. Era mais um desses torneios , Lucca tinha ganhado uma das partidas e caiu na chave de um jogador com o melhor ranking do torneio . Os dois começaram a partida com suas cristas levantadas, esporas afiadas, bolas rasantes e velozes, poucas trocas, muita pancada. E de repente, algo muito lindo aconteceu … eles começaram a elogiar mutuamente suas belas respostas aos ataques. Relaxaram. Já não cantavam mais quando a bola ia fora do campo um do outro, trocavam muitas bolas, faziam pontos cada vez mais bonitos, quando paravam para beber água ficavam conversando. Fim das contas: a partida durou quase duas horas, já tinha platéia assistindo e torcendo, afinal todo o resto dos meninos do torneio já tinham terminado suas partidas e esperavam pelo resultado para continuar a jogar.  Lucca perdeu, por pouco, mas perdeu. No carro, na volta para casa, ao comentar animadamente o jogo ele me disse… “Nesse jogo não sinto que tenha perdido, acho que ganhei, ganhei muito.”

 

 

 

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