Filhos terceirizados

Mais um post da nossa convidada Fernanda da Escóssia, que topou compartilhar suas aventuras da maternidade com a gente. Nesse texto, ela fala sobre os extremos da maternidade terceirizada. 


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Filhos terceirizados

Por Fernanda da Escóssia*

A menina chorava, esperneava, gritava. A babá, coitada, sem saber o que fazer, implorava que ela colocasse a touca, os óculos. “Vai, querida, entra na piscina, a professora está lá…” A molequinha a berrar estava e a berrar continuou. Não houve técnica que convencesse a menina a entrar na piscina para a aula de natação.

Do meu lado, a babá conversava com outra babá. Porque o banco das acompanhantes da natação é das babás, justiça seja feita a elas. Babás negras, vestidas de branco. A babá da menina explicava para a colega, que acompanhava um garoto. “Sabe por que ela está chorando? Porque a mãe entrou de férias hoje e prometeu que viria ver a aula. Mas desistiu e não veio.”

Pensei naquela mãe e em como ela deveria estar exausta e desesperada para tirar férias em fevereiro, depois de um janeiro trabalhado, com as crianças sem aulas. Em como talvez só quisesse dormir um pouco, ou, o que é pior, em como talvez não tivesse conseguido dormir para arrumar a mala da viagem com as crianças, ou em como talvez estivesse aproveitando para ir ao salão por tanto tempo adiado. E na dificuldade da babá em explicar para a menina por que a mãe não estava ali. Dei razão à mãe, à babá e até à menina que fazia birra. Todo mundo tem razão.

A outra babá começou a contar sua história à colega. Disse que não se preocupava com os ataques de birra do garoto de quem cuidava. Se ele não queria comer, não comia. E que, no baile de carnaval da escola, ele tinha ido sem fantasia, porque demorou tanto para escolher a roupa que o ônibus do transporte escolar chegou. Pensei em como eu sofreria se meu filho fosse o único sem fantasia no baile escolar. Pensei em como é irritante a criança que demora demais para comer, que exige roupa assim, assado.

Estava decidindo quem teria razão dessa vez quando ouvi o resto da conversa. “Sabe que ele quer ir passar o carnaval lá comigo? A mãe vai viajar, e ele não quer ir com ela”, contava a babá do garoto sem fantasia à babá da menina sem aula de natação. “Eu expliquei à mãe dele que não dá, que ele já passou comigo esse fim de semana, ficou lá em casa sexta, sábado, domingo e só voltou segunda. Expliquei que ele tem que ficar com a família dele, não com a minha, nos feriados…”

Pensei em como era incrível que a babá precisasse explicar aquilo à mãe. E em como precisamos de ajuda para criar os filhos. Eu sempre precisei, e sempre tive muita sorte com excelentes auxiliares. Na rotina das redações, como repórter ou editora, trabalhava aos sábados, domingos, feriados… e sem babás de confiança não teria conseguido. Mas pensei que aquela mãe estava passando um pouco da conta, mandando o filho para a casa da babá até nos feriados.

Não terceirize seu filho. O tempo não volta.

* Fernanda da Escóssia é jornalista. É mãe da Ana e do Daniel e tem uma enteada, Maria. É potiguar, cresceu no Ceará e vive no Rio de Janeiro há mais de 20 anos. Acredita no amor e nos livros para ajudar a cuidar de crianças. Ah, já é tia-avó quatro vezes.

 

 

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