Estamos todos aqui

IMG_1072Acabei de ler essa semana “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva.

Não lembro quando li “Feliz Ano Velho”, que teve sua primeira edição em 1982. Mas lembro bem que eu não era mais tão criança, mas ainda não era tão adolescente e de como fiquei impressionada com as tragédias na vida daquele jovem e sua família. O livro de 2015, como bem definiu uma amiga, reúne vários livros num só. Curiosamente lançado no mesmo momento em que algumas vozes pedem o retorno daquele período triste e vergonhoso da nossa história, mergulha mais fundo nos detalhes da prisão, tortura e morte do patriarca pelos agentes da ditadura nos anos 70. Relata a dor e a vivência daquele turbilhão pela família de mãe e cinco filhos que restou. E gira principalmente em torno da mais recente tragédia vivida pela família Paiva: o Alzheimer da mãe, Eunice.

De todas essas narrativas e paisagens coincidentes com a minha vida (o livro traz memórias vividas pelos Paiva no Rio, São Paulo e Campinas!), a que mais me impressionou foi a bravura e resiliência daquela mãe ao longo dos anos, diante das dificuldades e das novas conquistas. Uma das passagens mais belas é o momento em que, ao serem tema de uma reportagem na revista Manchete sobre o desaparecimento do pai, a família posa para uma foto e sorri irreverente, mesmo sob os pedidos do fotógrafo para que façam cara de tristes, de sérios e infelizes.

“Observo a foto hoje e vejo nos olhos da minha mãe: quem você pensa que é, para nos fazer infelizes?

Nos indignamos.

Não é a imprensa que nos pauta, nós a pautamos.”

Vivemos hoje em torno da fogueira da vaidade das redes sociais, onde todos são lindos e saudáveis. Viajam, se divertem, vão a restaurantes interessantes. Os filhos são bem educados, não tem problemas na escola. Ninguém tem crise, ninguém sofre, ninguém tem problema.

Só que não. A vida é cruel e dura para todos. Nem todo mundo é amigo. As pessoas mentem. Todos vivemos problemas rotineiros e também outros gigantescos. Faz parte dessa vida ter problemas. E ensinar nossos filhos a enfrentá-los, sem vitimização, sem achar que o mundos nos persegue, é o papel também de quem é pai e mãe. Como fez Eunice. Não escondeu a verdade dos filhos, não os transformou em reféns da vitimização. Seguiu adiante. Mostrou que a vida seguia e que eles precisavam seguir, apesar das tragédias vividas. E, como ela, ainda estamos todos aqui, para viver e enfrentar o que temos, o bom e o ruim.

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