Alô…?

Lucca ganhou seu primeiro celular em Milão, com 10 anos, depois que a escola o deixou perdido na cidade por duas vezes, história que já contei aqui para vocês. Não foi uma decisão tranquila, e foi um processo com muitos acordos, porém ali se tornou necessário o celular. Era o mais simples de todos, fazia chamadas.  Estava ótimo.

Antes de mudarmos para Londres resolvemos dar um smartphone para Lucca. Mesmo com todas as questões de que dali para frente perderíamos o “controle” sobre o que ele teria acesso, do nosso ponto de vista, o celular poderia diminuir a distância entre ele e os amigos que tinha feito ali na Itália;  além de responder a necessidade básica de telefonarmos para ele. Contudo, ainda é raro que o celular seja usado com o objetivo primeiro pelo qual ele existe : uma forma rápida de acesso em momentos em que precisamos nos conectar. Todas as vezes que eu tento falar com Lucca pelo celular … tu, tu, tu… “sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagem”.  Já não gosto de falar no telefone, e  imagina a minha felicidade de  falar com a caixa postal do Lucca?

Para as outras coisas o celular funciona que é uma maravilha. Esse final de semana, por exemplo,  encontramos amigos italianos que estavam aqui em Londres, porque Lucca faz parte do grupo de whatsapp da escola de Milão. Ele e seu amigo combinaram todo o programa, e nós os pais, tanto do lado de lá quanto de cá, resolvemos deixá-los protagonizar essa história. Foi uma experiência deliciosa,  que tenho certeza , os meninos cresceram muito com ela e ganharam auto-confiança. IMG_3368

O celular funciona também muito bem para ser perdido. Lucca no ano passado perdeu de verdade o seu smartphone. Como castigo, voltou uma casa no quesito aparelho e  ficou um bom tempo com um bem simples de novo, aquele só para fazer chamadas. Até que resolvemos dar uma segunda chance para ele. Afinal, ele estava  perdendo um tesouro: a possibilidade de se comunicar com as pessoas que estão longe. Eu é que me dei bem. Comprei um novo aparelho para mim, e dei meu velho para ele. Parece que o castigo deu certo e a frequência com que ele não sabe onde está seu celular tem diminuído bastante.

A partir do celular ele mantém as relações vivas com a família no Brasil, com os amigos na Itália e com os amigos daqui da Inglaterra, o que o faz se sentir parte de um pouco de tudo. Só não tem relações com amigos do Brasil e Espanha, porque lá ainda não tinha celular, era muito pequeno. Então,  essas relações ainda passam pela intermediação das mães, o que também me ajuda muito a manter vínculos.

Não, nem tudo é bom nessa história. Aliás temos muitos receios, que são discutidos com ele, e nosso acordo é baseado na confiança. Defina confiança? Para mim é assim: confio na abertura que temos para falar de qualquer coisa que parecer estranha, diferente, que incomoda. Não vou escarafunchar no que é dele, ir  atrás de informação. Mas se a informação de que algo errado está acontecendo chegar até mim, aí me vejo no direito de saber. O dia que perder a confiança, o acordo não será mais válido. Enquanto isso, privacidades respeitadas.

Dia desses chegou uma mensagem no meu celular dizendo que meu espaço disponível de armazenamento de fotos estava se esgotando. “ Ué, como? Se o aparelho é bem novo e tem mais memória que o outro?” Resolvi dar uma olhada na minha pasta de fotos, se relamente precisava apagar algo. Deparei-me com um monte de fotos que não eram minhas, eram fotos de Lucca vindas  de seus grupos de whatsapp. Como o celular dele era  o meu, os dados dele entravam na minha pasta também . Eram fotos e mais fotos de pré-adolescentes, meninas e meninos , em várias situações… na escola, ouvindo música, na praia… Opa, olha a mãe-monstra saindo das trevas aí…

IMG_2942 Parei, respirei e lembrei de uma amiga minha que me diz… “tu vai ser sogra!” Fiz minha terapia pessoal, deixei o impulso de lado, e pensei de verdade na sogra que eu quero ser… quero ser a sogra amiga, companheira, participante, que aprende e ensina.  Afinal a essa altura do campeonato, será  com essas garotas que ,finalmente, poderei falar outra vez  das coisas do mundo feminino daqui para  frente. Quero voltar a falar de cor de esmalte, maquiagem, do ator mais bonito, coisas bem mundanas… nada de falar mais só de futebol.

Chamei Lucca num canto.

-Não sei como resolver isso filho, mas todas as suas fotos do whatsapp estão entrando na minha fototeca. Dá um jeito de desconectar isso aí, porque não acho legal receber fotos de suas “amigas” na praia; além de isso detonar minha memória.

Sutil como um elefante. Ele ficou vermelho, meio sem jeito, disse um “tá bom mãe”,  e não falamos mais no assunto. Só sei que as fotos deixaram de entrar no meu celular. É isso, cada um no seu quadrado, conectados pela confiança. Assim é como gosto que funcione. E funcionar não tem nenhuma obrigação de ser definitivo.

Câmbio, desligo.

 

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