Moeda de Troca

Lucca não é um aficcionado em videogame, mas gosta muito, mas muito de um especifico de … futebol ( grande surpresa, não?!) .

Acontece que esses jogos agora tem uma estratégia de continuar ganhando dinheiro pós- venda da última versão. Explico melhor: além de todos os anos terem uma nova versão que o jogador “must have”, senão é considerado um ser fora da comunidade dos vídeogames, o jogador  ainda pode melhorar a performance de seu jogo, montando um time espetacular. Só que isso tem um preço… o jogador tem que comprar moedas do jogo para conseguir montar seu time de estrelas. Máquina de tirar dinheiro dos pobres sonhadores com o tal time, ou dos pais dessas pessoas.

Até ter a última versão do jogo temos ido… vira um presente importante do ano: Natal, aniversário ou dia das crianças. Mas comprar moedas … não. Semana passada começou toda uma campanha para comprarmos as tais das moedas para ele.

– Mãe , você sabia que posso montar um time no vídeo game com Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo juntos?

– UAU! Verdade filho, como?

Pensei que ele ia me dizer que precisava passar mil fases super difíceis, como eram os vídeo-games antigamente, mas…

– Só preciso comprar moedas e com elas posso comprar os jogadores.

– Sem discussão Lucca, não vamos nem começar essa conversa. Não entro nessa negociação.

Mas isso não quer dizer que seja impossível dele conseguir. Achamos importante que ele aprenda a conquistar as coisas que realmente quer. O acordo que fizemos é que se ele quer comprar as tais moedas tem que trabalhar para consegui-las. Para tanto, pode aproveitar as férias para fazer algumas atividades que não estão entre suas responsabilidades de rotina na casa: não vale tirar e colocar a mesa, arrumar seu quarto, manter seu banheiro minimamente em ordem, ajudar em coisas simples na cozinha, organizar seu material escolar e de esporte.

Nosso acordo foi que cada nova atividade ele ganha uma libra. Uma libra por ajudar a fazer a manutenção do jardim, uma libra para passear Cuca no meio do dia, uma libra para arrumar seu armário e tirar o que não servia mais… Até agora juntou 6 libras. Ao final da entrega do trabalho, avalio a qualidade do produto e pago. Moeda na mão. Nada de “você tem X libras comigo”. Pelas contas dele,  no andar que vai a carruagem, levará de duas a três semanas para juntar o quanto é necessário para comprar as tais moedas.

Não estou de todo confortável com esse acordo, admito. Por um lado não acho justo pagar por ajuda dele em casa com as coisas que dizem respeito a ele, ou a vida em família, ao espaço comum e coletivo. Mas pelo outro lado, vejo ele aprendendo muitas coisas com isso: o valor do dinheiro, o valor do trabalho, a ter um pouco mais de ambição ( já presenciei propostas dele ao pai de lavar a louça do jantar em troca de uma libra) , a se planejar para receber uma quantidade por dia que possa garantir sua meta de ter o suficiente em 2 ou 3 semanas.

A balança está pesando para o positivo nessa experiência que fazemos, mas algo dentro de mim diz que não estou assim convencida de que é a melhor maneira. Talvez por não querer ele dependente dessas regras abusivas desse sistema do vídeogame. Talvez por esperar que ele colabore espontaneamente dentro de casa. Talvez por não achar nada legal estabelecer uma relação mercantilizada com meu filho. Ou talvez tudo isso seja mesmo uma desculpa deslavada para a dificuldade de ver que ele está crescendo, e aceitar que melhor ele entender que no mundo real se ele quiser algo ele vai ter que conquistar, e que nesse game da vida passar de fase será muito mais desafiante do que a chance que estamos dando para ele de se ganhar suas moedas diárias.

Comentar