Longe

Semana passada, três homens armados entraram na casa da minha mãe, em Natal. Levaram o carro, os celulares e a nossa paz. Deixaram o medo e a angustia nas filhas que moram  longe. Novos muros vão subir, novos cadeados vão ser comprados, mas não há  muros, nem cadeados suficientes para aliviar a preocupação de quem está longe e não pode fazer muito, além de telefonar e tentar animar.  E este é provavelmente o pior pesadelo dos expatriados: e se passa alguma coisa e eu não estou?

Esta angustia vai aumentado na medida que o tempo passa e vemos nossos pais envelhecendo. Os amigos a nossa volta também estão passando pelo mesmo. Vendo seus pais começarem a necessitar de alguma ajuda. E eles estão por perto e podem dar uma força. Mas e você que está longe? Como é que faz? Questão bem complicado e dolorosa, que tentamos não pensar muito, não antecipar, mas que qualquer dia bate na nossa porta.

Já passei por um momento bem duro, durante o ano em que meu pai esteve em tratamento contra o câncer. Fui muitas vezes ao Brasil para estar com ele e tive a sorte de contar com um chefe compreensivo, que nunca me colocou problemas por me afastar do trabalho o tempo que fosse necessário, embora nunca fosse o bastante.  Um tempo mais que importante para que meus pais se sentissem apoiados, queridos e protegidos por suas filhas. Eu e minhas irmãs fomos nos revezando para que sempre estivesse alguém com eles. Mas a culpa de quem vive longe é sempre pensar que não se está presente o suficiente. Ou será que esta angustia é igual a de quem está perto?

É complicado consolar à distância. É triste querer distrair estando longe. É duro pensar em coisas práticas a fazer sem poder ajudar: chamou a polícia? Ligou para o banco? Trocou os cadeados? Fazendo o possível para estar presente, mesmo que não fisicamente. Estar ao alcance do telefone e do aeroporto em caso de necessidade. Este é nosso papel sempre que seres amados nos necessitam. Ou pelo menos deveria ser.

 

 

 

Comentários

  1. E” mana. Nos que estamos longe sabemos a dor e angustia de estarmos longe de nossos familiares. Das pessoas que amamos. Temos no nosso interior a responsabilidade e uma certa ”culpa” pela nossa ausencia fisica. Mas o importante é que nos os temos em nossos pensamentos sempre e em nosso coração.

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