Endereço incompleto

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Comum aqui é voltar pra casa no verão. O novo comum. Porque nunca chamei julho de verão. Nem tenho mais casa no Brasil.
Se em “casa” as apresentações vem seguidas das amizades que se tem em comum, ou referências ao trabalho, a ordem aqui é o país de origem e o tempo de moradia.
Me cansa o protocolo, a repetição, mas não vejo saída. Junto da nacionalidade de alguém vem a forma como você a cumprimentará dali em diante, a interpretação caricata de sua família, cultura, educação e o pacote.
Na metade do ano seus “novos velhos amigos de infância” te perguntam se você vai ao Brasil, quando, quanto tempo, onde vai ficar. E na volta, perdidos, cansados, estranhos, todos dizem que foi ótimo matar a saudade, ter com quem deixar os filhos para sair com o marido, mas que estavam loucos para voltar pra CASA.
Onde é a minha casa?
A primeira amiga que fiz quando cheguei vai voltar pra casa. Aposto que queria ter dito o mesmo que o Renato “Eu estou indo pra Brasília / nesse Brasil lugar melhor não há”, mas não disse. Reunidos com outros queridos, outra disse uma coisa que fiquei remoendo dias a seguir. Ela disse que não adianta perguntar aos seus amigos de infância como vão as coisas, porque a distância não te faz saber QUE coisas. Não se sabe das minúcias. Permanecem seus amigos com certeza, mas um universo de experiências te separa deles.
Minha grande amiga se casou e nunca fui à sua casa.
Outra muito querida teve um filho, que só vi quando nasceu.
Minha irmã foi palestrar no Congresso Nacional e eu não vi.
Meu sobrinho tem uma namorada que não conheço.
Quem será que alugou a sala do meu escritório?

Onde é a minha casa?

 

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