Brasil para invisíveis

Há algum tempo, estou realizando um trabalho pessoal, fotografando mulheres brasileiras que vivem na Espanha. Está sendo um trabalho muito interessante, não apenas pelas fotos, mas pela oportunidade de conhecer tantas histórias distintas (a melhor coisa de ser jornalista), de entender este sentimento compartilhado de ser estrangeiro e compreender o que significa para cada uma destas mulheres coisas como “casa”, ” país”, “cidadania”, “saudade”, etc. Como cada uma resolve, ou tenta resolver, estas questões comuns a cada uma de nós.

Está sendo um trabalho longo, o mais longo que já fiz. Uma sorte. E uma das coias que tem me chamado a atenção é que nenhuma (já entrevistei a nove mulheres) quer voltar ao Brasil. Claro que isto não é nenhuma investigação científica, não é uma mostra considerável da grande comunidade brasileira, mas mesmo assim é um dato curioso. E por isto mesmo, tento entender porque uma pessoa não quer voltar ao seus país. Será que sou só eu que tenho este sonho da volta? Ser estrangeiro não é nada fácil. Viver em outra cultura, outra língua, sofrer algum preconceito, se sentir longe, em uma casa que não é a tua. Então, onde está esta barreira que parece tão intransponível para não desejar voltar? Algumas, nem de férias. E, mesmo assim, seguir vestindo a camisa do Brasil. Continuar a comer arroz com feijão quase todos os dias. E inclusive, pagar caro por bombom Garoto importado.

Para mim, o ponto é que para a grandíssima maioria dos brasileiros que deixaram o país, foi empurrado a isto, não veio porque quis. Brasileiros que vêm aqui estudar, ou porque conseguiram um posto de trabalho interessante, são muito poucos se comparados aos que imigraram em busca de uma vida melhor a que a tinham no Brasil. Estas são as pessoas que verdadeiramente deixam o país. E deixam mesmo, pois é bem complicado juntar dinheiro para visitar a família depois. E  descobrem aqui que um trabalho digno para um aluguel digno. Que os filhos têm uma educação decente, saúde gratuita e que deixaram de sentir medo. Medo de sair de noite. Medo de andar de sozinhas. Medo do ladrão, mas também da inflação, da falta de futuro, de ser invisível.

Sim, porque no Brasil estas pessoas eram invisíveis. Invisíveis para a televisão e para os jornais. Invisíveis para muitos governos. Tão transparentes que não importa onde vivem, nem como vivem. Se tem saúde ou não. Se tem escola ou não. Se tem um futuro para os filhos ou se vão reproduzir o mesmo estado de coisas. Não importa se a rua tem saneamento ou se tem transporte. O Brasil verde e amarelo, aquele da camisa que todos vestimos em dia de jogo, nunca olhou muito por estas pessoas. Então, ele vai ficando cada vez mais distante, menos saudoso. Presente só na língua ( a língua é nossa pátria, já disse o Caetano) e no paladar.

Talvez a grande conquista do imigrante brasileiro seja deixar de ser invisível. Viver em uma via de mão dupla: ser parte e partícipe de uma sociedade. Ter algo que é maior que ele, que sua rua , que sua família: sua cidadania. Perder a capa da invisibilidade. E o coração nem fica dividido. Não tem lá e cá. Não tem passado. Só tem o hoje e a vida em diante. Uma grande lição.

 

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