Trabalhando com chineses

Assim que eu cheguei a China, passei cinco meses atuando na área de marketing da empresa onde eu trabalhava no Brasil. Aprendi muito sobre a cultura, sobre o trabalho com imprensa. Mas, o que eu mais curti foi ver como a minha vizinhança no trabalho era, digamos, diferente… Sempre tinha uma novidade…

Quase toda semana rolava ovo cozido bem cedinho. E muitas vezes, o ovo esta na minha mesa, esperando a dona vir buscá-lo. Ficávamos então naquela situação, eu e o ovo, o ovo e eu… Deixo ali? Como? Ou faço um rostinho sorridente pra ele ficar feliz?

Certo dia, estava eu concentrada em fazer algo super bacana: orçamento. A-do-ro!  Quer coisa mais bonita q excel mês-a-mês de projetos q devem ser cortados, encurtados, economizados, sugados e, claro, feitos internamente para não gerar custo extra?

De repente, ouço um “tuc-tuc”. Dei uma espiada discreta e não consigo identificar muito bem de onde vem. Olhei de novo, com um pouco mais de atenção, embora tentando ser discreta. Vi a vizinha de mesa com uma espécie de aparelho de telefone na mão, literalmente batendo na cabeça… “Oi??” Não aguentei. Vai ver é meu lado jornalista, ou algo inerente ao meu ser, a curiosidade me domina e a boca é mais rápida q meu cérebro… So sei q saiu um “wow! what’s that?” Acho q foi meio alto demais… Ou então, minha cara de espanto me traiu… Só sei q a vizinha me olhou com cara de casta superior e mandou na lata: “isso é um aparelho super moderno para aplicar produtos para cabelo. Você nunca viu?” (O olhar fala mais alto. Eu consigo entender esse olhar em chinês. Significa “sua gringa ignorante!”)

O aparelho parecia um telefone, ou pelo menos a parte q a gente usa para colocar no ouvido e falar. Telefone tradicional, saca? Bem, Imaginem um telefone, só que na região que você coloca próxima ao ouvido saem umas pontas de caneta, umas dez… É essa parte que ela batia na cabeça. De dentro dessas pontas de caneta saem um produto “muito bom para o cabelo, quer experimentar?”. “Não obrigada.” “Sente o cheiro, é muito bom.” “Eu acredito. Juro. Obrigada”. “Você coloca o produto aqui e aplica.” “Deve ser ótimo, mas lavei o cabelo hoje.”

Não seria melhor aplicar em casa, vendo novela e não do meu lado… Mas, quem sou eu pra discutir?

A partir de então, meus dias eram assim: “tuc tuc” de manhã, de tarde, de noite. Fora o cheiro de produto de cabelo. Pelo menos consegui disfarçar a cara de espanto, mas a de nojinho ainda não…

Tô com saudade do ovo cozido…

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