Hiato

Di-a

Pa-ís

Idei-a.
Quantos hiatos cabem em quinhentos e trinta e dois dias vividos aqui?
Quanto neste país cabe de mim?
Me falta ideia.

O ano da chegada é embaçado na montanha que se desmonta diariamente em caixotes para desfazer.
É de reconhecer semelhanças com o que era familiar antes. É de procurar azeite Borges, tapioca, manga palmer e biscoito Maizena. Meses de mostrar mais os dentes, de simpatia necessária, de portas, poros e braços abertos.
Um calor imposto pela vontade de pertencer, de ser deste novo pa-ís, que tem hiato mas na chegada não se vê.

Que te separa da Tua
pátria,
da Tua
mãe,
da Tua
vida.
Do tamanduá.

Um deserto que na gramática não tem hiato. Só areia.
Essa areia que te invade a casa.
Que vem em tempestade,
que serpenteia pela estrada,
que te embaça a visão,
que desacelera o carro.
Uma ampulheta anciã, beduína, sabida…. Que fica ali escondida em fumaça de incenso, perfume de Alquilaria, cardamomo, canela, camelo, poeira, fogueira. Essa areia que agora é também de mim, que nunca fui de nada nem de ninguém.

Tem também esse sol, esse sol, esse sol.
Esse Sol. Sol.
Só SOL.
Verão eterno, que te cega,
te vinca
te queima a moleira, a grama, a carne, as ideias.
As ideias.
Idei-as.
ide i as!
i(h)!
Ide as… Foram.

Hiato.

Elas me faltam. Fogem. Se escondem na máquina de lavar roupa,
na panela do feijão, debaixo do travesseiro, na minha exaustão.
Tento catar no jardim mas o sol derreteu.
No escuro, mas o sono escondeu. No banheiro, mas a Antônia chamou.
Fudeu.

Quase dois anos de hiato.
Todos esses di-as.
Neste pa-ís.
Sem idei-a
do hi-a-to

em mim.

 

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