Gente com apelido.

Tenho mania de dar apelidos para algumas pessoas. Não é para todo mundo,  e nem me pergunte o porquê. Eles simplesmente acontecem.  Parece pouco? Não é  um único apelido não…pelo resto da vida, vou dando muitos e diferentes, todos  para a mesma pessoa. Eles podem ter a ver com o nome ou não. Geralmente esses seres multi-apelidados por mim são os mesmos  que tenho vontade de apertar muito, de tanto que eu gosto.

Minha primeira sobrinha, Giulia, está entre os seres  de multi-apelidos da história da minha vida. Para mim ela é  também  Giuquilee, Piluca (e suas derivações, Pilú e  Piluquenta), Giugiu,  Giuca,  ou, juntando tudo, Giuca-Piluca.

Foi ela que, com 3 aninhos, pelo telefone, escolheu o nome da Cuca quando contamos que tínhamos comprado um cachorro

– Giu, que nome você acha que deveríamos dar pra ela?

– Perna-longa Tia Nana.

– Perna-longa não dá, ela é menina e  não vai crescer. Sempre terá  a perna curta…

– Então Cuca.

E Cuca ficou. Mesmo depois de Cuca comer a mãozinha de sua querida boneca Poly, nada nunca abalou a ligação das duas . Assim também foi nossa conexão, automática.  Desde a primeira vez que a peguei no colo, logo depois de nascer.

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Saí de manhã bem cedinho correndo, atravessei a cidade toda só para  encontrá-la.  Fiquei o dia inteiro abobada daquele encontro, e não via a hora de acabar o dia de trabalho para  vê-la de novo.  Como  também foram  as semanas nos meses que se seguiram: contava os dias,  para que logo chegasse a sexta-feira, e  eu pudesse pegar meu carro e ir vê-la lá no interior, onde ela  morava.

Senti com Giugiu pela primeira vez o que poderia ser o amor  profundo  do querer cuidar e proteger alguém.

Contei histórias no meio da noite, quando ela acordou assustada porque dormia em outra casa,  comigo e com Miguel…

– …  e acabou a história, quem quiser que conte outra. ( silêncio)…

– … conta outra Tia Nana?

Mesmo sendo às 3 da manhã, quem resiste ? E dá-lhe história.

Inventamos musiquinhas, nos sujamos, nos limpamos em banhos de espuma, tentei  por vezes acalmar seu pranto também. E todo lugar que eu ia, buscava presentes com a  cara dela: um fusca rosa para a Barbie, uma bateria eletrônica que deixou minha irmã doidinha, brinquedos, vestidos, sapatinhos, perfumes, óculos escuros.

No dia do meu casamento, quando passamos a manhã inteira só nós duas juntinhas , brincando das nossas brincadeiras,  fui capaz de compreendê-la :  vestidas de princesas,  ela  não quis entrar na igreja comigo.

Entendi também, quando eu voltei da lua-de-mel e trouxe uma boneca linda, a  cara dela , ao que no mesmo instante ouvi:

– Não é  a minha cara não, ela tem olho azul.

Foi naquele momento que aprendemos as duas a lidar com as mudanças , e dali para frente entendemos que o que sentíamos não ia mudar com elas.

Lucca chegou e ela se tornou seu modelo, como qualquer irmã mais velha .  As fotos não mentem e quem os vê juntos, percebe a intimidade que eles têm e  não questiona que são irmãos. Do time de futebol que ele torce ao gosto esquisito de arroz com ketchup que aprendeu a comer com ela. No  jeito de falar dele muitas vezes  vejo o  dela.

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Talvez, para mim,  esse seja o aspecto mais dificíl de morar em outro pais:  a imposição da convivêcia à distância. Não poder amassar, sentir o cheiro, puxar a orelha, estalar um beijo na bochecha,  visitar a casa nova, comer a comida, conhecer pessoas novas que entraram na vida de quem esta lá.  Mas vamos combinar que nós , os expatriados pós-internet, somos muito privilegiados. Sabemos quase tudo em tempo real, com direito a imagem e som. Tirando os sentidos do tato, do olfato e do paladar, podemos quase tudo. Além disso, sermos limitados em algumas coisas faz com que  aproveitemos muito  mais qualquer chance que o universo nos proporciona de encontro.

Giú e eu já nos encontramos muito por aí:  tomamos muitos tombos  juntas, comemos coisas deliciosas juntas, passamos perrengues, fomos à festas,  spa ,  praia,  piscina, brigamos, fizemos as pazes, rimos uma da outra, e também choramos. Temos muita história para contar. A esse vínculo que tenho tão profundo com minha sobrinha e  aFILHAda, devo à generosidade de minha amada irmã, que sempre me permitiu participar em tudo no desenvolvimento dela: de trocar fraldas a broncas depois de porres.  Minha irmã Sandra, é outro ser  multi-apelidos em minha vida, não é Maria?

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Ontem celebramos mais uma vez Giuquilee… foi seu aniversário.  Com  o peito inflado digo para todo o mundo que tenho muito orgulho da mulher que você  está se tornando, Giuca.

Feliz 19, 20, 30, 40, 50… e quantos anos mais  vierem Pilú. Até lá seguramente a minha  lista de seus apelidos vai estar muuuuiiiiittttttooooo, mas muito maior.

 

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