Ficar para mudar

Há alguns meses, recebi uma proposta de trabalho no Brasil. Não era tão ruim a ponto de não ser levada em consideração, nem tão boa a ponto de nos fazer sair correndo. Na verdade o trabalho era bem interessante. Mas financeiramente estava no meio termo e no meio termo estivemos durante um bom tempo. Afinal, quem não gostaria de estar mais perto da família, dos amigos, de voltar a falar português, de ver os filhos em uma festa junina? Mas o custo Brasil é alto, o país está entrando em um período econômico complicado, embora ainda tenha muita ladeira que descer para chegar no nível da Espanha atual, bateu o medo. Medo de perder privilégios como escola e saúde públicas, trânsito humanizado, levar os filhos de bicicleta para a escola. Então, depois de pensar e repensar e voltar a pensar, ficamos.

Se ficar por um lado era a decisão mais fácil, pois não tínhamos que fazer mudança, nem procurar outra escola, nem apartamento para alugar, foi provavelmente a decisão mais dura. Ficar também significa não mudar. Quer dizer, permanecer com tudo que tem de bom e ruim. Os mesmo inverno, o mesmo vento, os mesmos desafios de ser estrangeira. Então neste período de dúvidas e reflexão, tivemos que mudar para ficar. Trocar o significado do verbo. Um nova gramática aplicada a vida diária, que faz possível uma outra sintaxe do que é viver em outro país.

Porque quando você muda de país, o pior que pode fazer é pensar no que ficou atrás. Quando cheguei na Espanha, fazer isto era mais fácil. Vivíamos na  época pré-facebook e whatsapp. ( O falecido orkut nunca existiu para mim). Antes nos comunicávamos por email e telefone e tínhamos notícias dos amigos e da família de forma habitual, mas não diária e muito menos instantânea. Agora os amigos marcam um chopp  e eu fico sabendo, pois estou no grupo. Você vive em direto as alegrias do Carnaval porque te mandam um video do momento. A praia tá uma delícia? Subimos a foto. Sim, meus amigos, eu adoro saber de vocês! Não parem! Mas aprendi que para viver bem longe da tua terra é preciso não dar muita importância a nada disto. Viver no mundo real, no agora, neste presente. Para ficar sem permanecer é preciso dar atenção ao nosso dia-a-dia: na obra do novo supermercado do bairro, nos novos amigos feitos na festinha de aniversário da filha, na alegria do verão se aproxima. A cabeça tem que sair do lá e se mudar para o aqui.

Ficar sem permanecer significa também que estamos autorizados a mudar o sofá, a pendurar novos quadros na paredes. Porque ficar sem permanecer é ganhar paz para sair do meio do caminho. Fechar definitivamente a malas e dizer assumidamente que estou aqui agora. O tempo é algo imponderável. Para sempre não existe. Mas nosso ficar é este que está aqui e isto nos dá uma enorme paz.

primavera

 

 

Comentários

  1. Ótimo texto, Rô! Que a sua estadia estendida seja sempre muito feliz. Enquanto isso, esperemos que as coisas na nossa terrinha melhorem! beijos

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