Feliz ou inteligente?

Quando estava grávida do meu primeiro filho e lia tudo o que me caía nas mãos sobre o tema, li em uma revista um texto que perguntava: se você pudesse escolher, preferiria que seu filho fosse inteligente ou feliz? Na época não entendi porque estas duas coisas seriam excludentes, mas agora, depois de viver dois cursos escolares com o mais velho, entendo melhor esta questão. Continuo pensando que, obviamente, uma coisa não exclui a outra, mas fico cada vez mais impressionada como a sociedade em geral, a escola e como muitos pais valorizam somente um tipo de inteligência: aquela que faz a criança tirar boas notas na escola. Se subentende que boas notas levarão a um sucesso profissional e, portanto, a felicidade vem como prêmio.

Na reunião de fim de ano (escolar) no colégio do Hugo (uma boa escola pública, em um típico bairro de classe média de Zaragoza, Espanha), a maior preocupação dos pais era quantos e que tipo de deveres escolares eles deveriam aplicar aos filhos durante as férias de verão. A turma do Hugo tem quatro anos! Estão no Jardim II. Tudo que os pais queriam, e competiam entre eles, era que o filho fosse o primeiro em ler. E tudo o que conseguia pensar era por que as pessoas só conseguiam pensar em deveres como a única forma de aprender? Por que não ir ao parque, ao cinema, ao teatro, à praia? Por que não ir ao supermercado, fazer a comida, andar de bicleta? Uma criança de quatro anos é uma esponja. Está aprendendo tudo o tempo todo. Aprende conceitos de espaço com os carrinhos. Matemática, indo ao supermercado. As letras, com as histórias de princesas. E mais, está aprendendo este conceito de felicidade. Sobre o que espera do mundo e o que fazer com as capacidades que tem. Alguns adultos é que ainda não perceberam.

Minha conclusão de mãe (não tenho nenhum estudo de filosofia, sou apenas jornalista que, como tal, estou acostumada da dar opinião onde não me chamam) é que a felicidade que desejamos, sonhamos e trabalhamos para nossos filhos já não funciona mais. Estamos criando filhos estressados, pouco confiantes em si mesmos e, o que é para mim o mais triste, pouco curiosos, pois prevalece o dever, as notas, o sucesso em detrimento de outras formas mais divertidas, dinâmicas e prazerosas de aprender. Se espera o sucesso profissional em vez de uma formação completa de um ser humano. Aí encontro pessoas adultas – muitas – super inteligentes, que colocaram todo seu foco em somente um lado de suas vidas, e que encontram muitas dificuldades em ser felizes. Que  para mim é estar em paz com as suas escolhas. Ter a capacidade de reconhecer seus limites, gostar de si mesmo sem perder  jamais a empatia pelo outro.

O mundo que espera aos nossos pequenos dá muito medo, pois vai numa velocidade nunca vista. Não sabemos o que esperar dos próximos cinco anos, que dirá dos próximos 30. Por isto penso que a criação de uma criança, no meu caso de duas, tem que ir muito mais além do conceito tradicional de que o sucesso profissional vai trazer dinheiro e felicidade. O mundo que os espera terá que ser decifrado por estes meninos e meninas com melhores capacidades que as nossas. É um grande desafio. E não temos nenhuma outra escolha que não seja enfrentá-lo. Da forma mais prazerosa possível. Para que inteligência e felicidade não sejam jamais conceitos opostos.

 

 

 

 

 

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