A Cruz e a Espada

Ela sempre está a espreita. Há um bom tempo ela está querendo um espaço além do que já negociamos, e que ela bem sabe como conseguir… No começo eu ficava bastante impaciente com sua forma constante e duradoura de se impor, mas com o tempo tenho percebido que ela é cada vez mais necessária para esse admirável mundo novo. E tenho sido grata que ela tenha se tornado minha amiga e uma grande aliada. Confesso que , como todo ser humano, não é fácil mantê-la. Algumas vezes nem a considero. Quando algo muito novo me surpreende, e meu lado impávido colosso me toma , ela me escapa, sai correndo, foge, some de perto. Depois me arrependo. Mas tenho aprendido que nessas horas melhor tentar me controlar , guardar silêncio, até que ela se acerque outra vez.

Aahh minha querida Tolerância… só nós duas sabemos o exercício que praticamos juntas, diariamente e muitas vezes.

Como quando o vizinho dos fundos, mesmo me vendo chegar carregada de compras, me pára no portão para reclamar de Cuca que às vezes late e chora quando saio, enquanto quase não consigo escutar o que ele diz com seus três cachorros latindo enlouquecidamente ao fundo. Nesse momento te agradeço, você me acompanha Tolerância… “ok vizinho, vou tentar controlá-la, mas como você pode ver, se trata de um cachorro, como os seus…”. Ou quando a outra vizinha estaciona seu carro no meio da rua atrapalhando a saída e passagem dos outros… E ao ser solicitada educadamente que tire seu carro, a pessoa obviamente se acha no direito de ser rude e responder “você não vê que estou descarregando? ”…Oh, I apologize my dear… ou será que deveríamos todos termos ajudado a descarregar seu carro? Nessas horas rogo por clemência, Tolerância, porque nem a rainha Elizabeth tem esse direito.

Esse outro que acabei de nominar, tenho tentado colocar de acordo com a Tolerância: o Direito. Mas, de quando em quando, eles parecem como água e óleo. Não porque se tratem de assuntos divergentes, deveriam ser complementares, mas porque algumas pessoas acham que tem mais direitos que outras. Nesses casos, tolerância não cabe.

Honestamente amiga Tolerância, tem vezes que me sinto uma tola por te adotar. Mas decidi que não desisto de você.

Aliás acho mesmo que você deveria se impor mais pelo mundo! Conquistar terras, céus, mares e o espaço virtual. Deveria estar em todas as esferas, contaminar a muitos: aqui entre meus vizinhos de Londres; na Síria, assim como em todos os países em conflito; nas redes sociais onde a cada dia que passa tenho visto mais e mais PHDs de “speak corners”, tão ensimesmados em sua audiência, defendendo suas verdades absolutas, e destruindo com argumentos hipócritas qualquer um que tenha uma opinião diferente.

E o diferente? Bom , esse é outro, coitado. E que na minha compreensão só traz mais cor, mais riqueza, mais dinâmica, mais abundância ,mais liberdade, mais tudo de bom, nada de menos. Mas, pela falta de tolerância fica reduzido, espremido, preso lá no calabouço, banido da sociedade, e na visão de alguns, “por favor, para todo o sempre”. Quanto desperdício.

Então ficamos assim : votos refeitos Tolerância… Não me deixe só, por favor. Que do meu lado, enquanto eu puder escolher, e ainda me sobrar lucidez posso ser considerada a tola errante, mas estarei contigo. Quero propor só mais um acordo…o de respeitar quem não goste da gente, porque todo mundo tem total direito de fazer suas escolhas.

O mundo pode ser de uma cor só, ou muito colorido, cheio de sabores, sons e perfumes . A escolha do que quer sentir é de cada um. Boas escolhas para todos nós.

 

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