Um cão global e seus muitos carimbos

Dia desses li o título de uma matéria que dizia:  “Austrália ameaça sacrificar dois cães de Johnny Depp”. Chamou minha atenção, e confesso que ao ler fiquei em conflito se me solidarizava com o intérprete  de  Jack Sperrow, ou se achava que ele havia abusado  de seu poder, por ser uma figura pública. O caso é que ele está filmando mais um episódio de Piratas do Caribe por lá, e resolveu levar seus amigos cães em seu jato particular, desembarcando no país sem seguir o protocolo australiano para o transporte de animais.

Sei  bem o que é isso. Especificamente por Cuca,  que é um membro de outra espécie da família …sei muito bem que esse é um tema bastante capicioso,  e que muda muito de país para país.

Foram duas as vezes que realmente quase desisti  dessa história de ir morar num outro país. As duas por Cuca. E desde a primeira vez ficou muito claro, enquanto Cuca não for , eu não vou. Não negocio nem  um milímetro. Se você é como eu com seu animalzinho, e imagina que se mover pelo mundo com ele é simples, pode tirar seu cavalinho da chuva. Não é. Aliás, é bem mais complicado em alguns países do que a burocracia com pessoas.

Em um de meus posts aqui já comentei o quanto foi complexo o processo de imigração de Cuca para a Espanha: exame sorológico demoradíssimo no Instituto Pasteur, com coleta de material feita por veterinário credenciado, procedimento controlado, chip, cópia de “trocentos” documentos, tudo com tradução juramentada, firma reconhecida dos veterinários e técnicos, colocação de chip , certificado de sanidade, vistoria do ministério da agricultura, companhia aérea dando as especificações para viajar em cabine, e lá chegando prazo de 3 meses para fazer seu passaporte. Ufa, só de escrever me cansou. E nem sei o quanto disso mudou nesses 6 anos, ou se era tudo necessário… mas não queríamos correr nenhum risco e fizemos tudo à risca. Tanto que o calendário de nossa mudança teve alterações causadas pela viagem de Cuca.

Uma vez na Europa e com o passaporte, tudo ficou mais fácil e ela podia viajar conosco para qualquer lugar no continente. Mas, olha a pegadinha, há controvérsias… O que ninguém imagina é que Grã- Bretanha , nesses assuntos, não é Europa. Por ser uma ilha , o protocolo de biossegurança é bastante preciso e muito controlado. Ao menos uma coisa boa, para os animais que chegam com passaporte Europeu, não é necessária a quarentena. Além de todo o processo burocrático, que devo dizer é muito menos complicado que do Brasil, nos tocou pensar em estratégias para trazer Cuca para Londres. E aí, tanto fazia se estivéssemos entrando em Londres pelo Brasil ou por qualquer país da Europa. As exigências eram as mesmas. Não é que seu animal de estimação não pode viajar na cabine do avião com você, o que evitaria o stress da viagem à nossa senhorinha, com 14 anos na época. Ela não pode ir nem no porão do mesmo avião. Aqui animal de estimação só entra em avião de carga e sozinho: desembarca sozinho, passa por um sistema de controle, e uma viagem São Paulo/ Londres , que já dura longas 11 horas pode durar para o bichinho estressado e sem muitas condições controladas 15/ 18 horas. NÃO, para Cuca não.

A equação não era fácil: minha velhinha não poderia correr nenhum risco de ficar sozinha nem lá , nem cá, nem no meio do caminho, e ainda não poderia ser de jeito nenhum algo que pudesse prejudicar seu equilíbrio de saúde senil. Foi muito o tempo dedicado de pesquisa, buscas, conversas, uma verdadeira equipe trabalhando no tema: secretárias em Londres, Milão e eu . E cada possibilidade pensada era derrubada, seja pela companhia aérea, pelo Eurostar, pela legislação do país. Até que Laura, a secretaria de Miguel em Milão, nos apresentou um plano: o único jeito era Cuca entrar por terra na Inglaterra com um taxi especial autorizado para transporte animal , vindo de Paris. Assim era possível ter ela conosco em todo trajeto, teríamos de apresentar a documentação e certificação de  procedimentos previamente  exigidos pela lei Britânica no posto de controle veterinário em Calais, no lado inglês da fronteira, antes de cruzar o canal da mancha. Cruzaríamos o Canal da Mancha dentro de um trem especial para carros, e  chegaríamos a Londres.

Assim foi que Cuca chegou em Londres. Vínhamos do Brasil, depois da Copa do Mundo, Cuca se comportou como uma dama no vôo: não latiu para as aeromoças, nem  chorou pedindo comida dessa vez. Na chegada em Paris ninguém para  conferir seus papéis, tudo tranquilo. Antes de entrar no taxi para a segunda etapa da epopéia, ela se aliviou e se reabasteceu. Pena que não tivemos tempo para sua foto com a torre Eiffel ao fundo. Cinco horas depois de nosso desembarque em Paris,  estávamos todos  em nossa nova casa, com Cuquinha bem. Que alegria.

Uma vez aqui, sair é fácil. Mas voltar é esse mesmo drama. Então,  Cuca tem frequentado mais o hotelzinho que em outras paragens. Mas em períodos de no máximo uma semana, mais que isso não deixo minha pretinha. Sorte que encontramos uma cuidadora que ama Cuca e a compreende em suas rabugices de anciã, Agnes, que para preencher a ausência de Cuca me manda fotos e mais fotos, várias vezes ao dia, quando estamos longe.

Mas isso não quer dizer que as aventuras de Cuca pelo mundo terminam em terras britânicas. O verão está chegando e como será por um período mais longo, Cuca vai conosco. Seja qual for o destino uma coisa é certa, Paris está no caminho de volta. E dessa vez a foto de Cuca  com a Torre Eiffel ao fundo sai, ah sai…  Pode esperar pra ver… Hulalá!

 

PS: Mr. Depp, se me permite, próxima vez que quiser ter seus companheiros contigo, queira mesmo. Tem jeito pra tudo, e o  que dá certo é aquele que respeita as leis de um país, mesmo que dê mais trabalho.

 

Comentar