Silêncio, preciso ficar acordada

Gosto do silêncio, preciso do silêncio, acredito no silêncio como uma forma poderosa de contato. Não tanto com o que está fora, mas com a nossa voz, que às vezes perde força, foco e expressão, que às vezes precisa sussurrar e chamar atenção de quem realmente precisa ouvir o que está lá bem do lado de dentro. Já faz mais de um mês que percebi minha voz inconstante, incerta, hesitosa, às vezes excitada, fora do tom, outras cansada. Resolvi aproveitar os momentos sozinha comigo mesma e ficar quieta, respeitar os acontecimentos, observar os movimentos e demorei a conseguir voltar ao blog para contar um pouco das mudanças recentes.

João está em Singapura a trabalho. Durante a semana sou eu e os meninos na selva. Aos finais de semana estamos juntos novamente. Nos encontramos às vezes na cidade e quase sempre aqui, no nosso verde infinito. A rotina mudou, a casa está mais vazia e as noites, coincidentemente ou não, parecem mais frescas, as crianças ainda não muito estáveis. Estamos em um novo período de experiência, são tempos de delicadeza e concentração.

As crianças têm pedido mais colo, João está feliz trabalhando, mas sente saudades. Eu sinto a falta do abraço sólido e da conversa cotidiana. Mas, como em todo período de mudança, estamos encarando esse processo como uma possibilidade de transformação. Aos finais de semana temos aproveitado para viver a vida de quem voltou a namorar. As crianças curtem o pai, que já era o herói e agora é o herói que vive a viajar, a ganhar a vida em outras terras, terras tão enigmáticas onde pessoas usam elevadores para chegar ao alto, andam de metrô embaixo da terra e, segundo Vicente, mulheres usam sapatos malucos com um pedaço de pau longo na parte de traz.

Eu e João fomos criados entre o carpete e a praia. Bento entre praças e chão de taco antigo. Vicente, até tem memórias de Lisboa, mas a terra que conhece de verdade é esta, do pé sujo na terra, das galinhas no quintal, do sapo tomando conta da entrada da casa, das possíveis cobras pelo caminho. Eles adoram Bali, mas também se deliciam na cidade onde tudo funciona e a vida pode ser movida a outros motores. Eu adoro ser bicho solto e mãe instinto na natureza, mas também adoro ser mulher crescida, “livre” e inteligente na cidade grande.

As possibilidades externas estão aí, se apresentando como a gente bem queria. Mas mudanças não chegam na vida da gente à toa, são implacáveis, desafiantes, certeiras e não podem ser menosprezadas. A menos que a mudança seja uma mera questão de deixar acontecer lá fora, de não querer repensar o que vem de dentro. Mas para a gente este não é o verdadeiro valor da mudança. Onde há mudança, há vida. E onde há vida, há a possibilidade de se transformar. Estamos figurativamente grávidos, ainda não sabemos o sexo da criança, nem onde vai nascer. Mas estamos gestando o período que chega depois destes lindos 10 meses em que mudamos nossos hábitos, repensamos nosso jeito de enxergar a vida, o mundo, e onde nunca estivemos tão juntos, todos os quatro, em tempo quase integral.

Por enquanto é tudo muito novo e nada está definido. Vivemos um tempo entre possibilidades. Não gostaria de sumir de novo, porque sei que se escrevo é porque no mínimo consigo ouvir a minha voz, mas se por um acaso sumir mais um pouquinho, peço licença: mulher grávida, mesmo que como metáfora, às vezes enjoa, cansa, precisa de silêncio para seguir criando. Daqui a pouco saberemos mais da nossa vida nova e quem sabe consiga dividir mais as notícias do novo filho por aqui.

Comentários

  1. Bia Querida
    Gestar, seja lá o que for, leva tempo e demanda as mais diversas atenções. Exige ouvir o silêncio que tanto diz e que nos embrenha ainda mais nele. De certa maneira, a vida – como sempre – segue seu caminho, já que gestar é natural.
    Cada qual envolvido no seu exercício de melhor conhecer os seus limites, descobrir as possibilidades e crescer, ganhar altura para melhor contemplar o espaço e, com isto, obter a necessária distância para observar o que se gesta – é importante.
    Podemos nos valer até mesmo da ajuda dos elevadores que as grandes cidades insistem em nos fazer acreditar ou até, através de ‘paus longos’ cravados em sapatos estranhos, para que se olhe- a certa distância – a terra em que as galinhas povoam, entre cobras e sapos guardiões.
    Sua delicadeza é proveniente dum gestar constante, que se parirá multifacetada em diversos olhares, ávidos do melhor leite.
    Todo silêncio é necessário para o preparo de um novo filho.
    Todo carinho e a alegria de saber das suas amplas gestações. Bjs Querida

  2. Bia Querida
    Gestar, seja lá o que for, leva tempo e demanda as mais diversas atenções. Exige ouvir o silêncio que tanto diz e que nos embrenha ainda mais nele. De certa maneira, a vida – como sempre – segue seu caminho, já que gestar é natural.
    Cada qual envolvido no seu exercício de melhor conhecer os seus limites, descobrir as possibilidades e crescer, ganhar altura para melhor contemplar o espaço e, com isto, obter a necessária distância para observar o que se gesta – é importante.
    Podemos nos valer até mesmo da ajuda dos elevadores que as grandes cidades insistem em nos fazer acreditar ou até, através de ‘paus longos’ cravados em sapatos estranhos, para que se olhe- a certa distância – a terra em que as galinhas povoam, entre cobras e sapos guardiões.
    Sua delicadeza é proveniente dum gestar constante, que se parirá multifacetada em diversos olhares, ávidos do melhor leite.
    Todo silêncio é necessário para o preparo de um novo filho.
    Todo carinho e a alegria de saber das suas amplas gestações. Bjs Querida

  3. Querida
    A vida é feita de momentos. Tudo a seu tempo. Esse momento passará e vocês estabelecerão outro, os quatro juntos.
    Fiz um filtro para o “mães em rede” e me esqueci de procurar ali seus textos.
    Hoje, assistindo uma reportagem sobre Singapura lembrei que vocês iriam pra lá e descobri que no meu filtro haviam 107 textos do blog. Imperdoável.
    Pelo título achei que era você e era.
    Sou sua fã.

    beijoca

Comentar