Que língua é essa…

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Lucca sonha em inglês e diz que nunca sonha. Acorda em português. Estuda em inglês. Dá tutoria na escola de italiano e de espanhol para seus amigos. Escreve em nas 4 línguas: muito bem em inglês, bem em italiano e espanhol, e mal em português.
Em casa falamos nossa língua mãe. Para Lucca de vez em quando aparece uma palavra na língua prima – o espanhol ou o italiano . Às vezes aparece uma palavra inglesada também … sabe quando alguém que não fala inglês coloca o “eixon ” no final da palavra e parece que tá tudo bem? Ops, isso aqui em casa ao contrário … outro dia saiu um “pronunciação” . Minha forma de mostrar que não está correto, é falar a palavra corretamente numa pergunta como se estivesse eu a errada… “Pronúncia , filho?” ao que ele repete … “Pronúncia”.

Quando Diana está em casa, a pessoa que me ajuda em alguns dia na semana nos serviços domésticos, falamos em inglês. Com a filha da vizinha falo em espanhol, e com a mãe dela em inglês . Com o amigo de Lucca em italiano. Com a outra amiga espanhol. E quando juntamos amigos italianos e espanhóis, a língua é o inglês. É um tal de mudar o botão da língua, que de repente você nem percebe e está falando Italiano com alguém que só fala inglês… e só cai a ficha mesmo com a cara da pessoa de espanto.
Zona de conforto geral é estar com nossos amigos brasileiros, aí é uma maravilha.
O bairro em que vivemos aqui em Londres tem muito italiano, e muito turista também, e já fomos voyeurs ,ou seria melhor ouvyers?, de coisas impublicáveis. Aquelas coisas que algumas pessoas se sentem no direito de falar quando acha que ninguém está entendendo, porque está em outro país, e geralmente é algo muito maldoso. No coments.
Já contei aqui que Lucca foi alfabetizado em Inglês e Espanhol. Quando nos mudamos do Brasil para Madrid, minha preocupação era basicamente com ele: como ele pequenininho, ia dar conta logo de cara de duas novas línguas? Para minha tranquilidade, eu via sua amiguinha brasileira na escola , Valentina, de 6 anos, que todo dia na saída da aula me dava uma lição: falava comigo em português, se voltava pro outro lado e falava com alguém em Espanhol, e ao mesmo tempo com outro em inglês. Sem ter virar nem uma chavinha… pá, pá, pá, tudo no automático. De verdade eu é que pensava… “Quando eu crescer quero ser como Valentina, sem esforço”.
Os Italianos dizem que Lucca fala sem sotaque, já os brasileiros, para minha resistência, dizem que se nota seu sotaque.
É um lío, mess, casino , confusão mesmo linguística viver em diferentes países e fazer vínculos neles . Como administrar tantas línguas, com tanta gente de tanto lugar diferente?
Minha amiga Anna , a sueca branquinha, me deu uma dica preciosa: “para cada pessoa uma língua. Você determina. Assim você não se confunde e mantém todas as línguas vivas. ” Sábia Anna, e para você meu Italiano cheio de afeto.
Mas nem sempre é assim, e quem me via conversando com minha amiga italiana, que tenho o maior carinho, Maria Serena, poderia pensar que era papo de doidas. Eu falava em Italiano com ela, ela queria manter viva a língua que tinha aprendido, me respondia em espanhol. E quando faltava uma palavra para as duas apelávamos para o inglês, que às vezes se emendava em diálogos, e que depois voltavam à origem bilíngue. Isso quando não rolavam lágrimas e risadas, ou risadas e lágrimas. Digno de chamar um médico.
Amigas provenientes da América Latina, não se contentam com meu espanhol com sotaque espanobrazuca… e querem mais: é outro acento, novas palavras. E elas só ficam felizes mesmo quando você solta uma palavra no “dialeto” delas. Aí abrem aquele sorriso largo com direito a um …“Anita, mi amor”. Tudo em um divertido jogo de estreitar laços. Assim é uma delícia aprender. Decididamente essa idioma eu entendo, e mesmo que eu não fale a língua de quem gosto, descobri que quando se quer bem, a gente acaba se compreendendo… às vezes até mais do que com nossos conterrâneos.
Chato mesmo é ter que ir para uma sala de aula, encarar um curso sisudo para receber um certificado de proficiência, o que estou fazendo nesse mês: de segunda a sexta-feira, 3 horas por dia. Então força… tô aqui tentando me convencer… vai Ana… respira bem fundo e faz sua lição. Não reclama, nem faz cara feia, que amanhã fazer um teste. E para passar rápido leva uma maçã, um chocolate, uma merenda de Nutela, e encara o desafio. Na maior alegria. Nada de corpo mole, se esforça porque se der certo , é mais uma coisa “done”.

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