O Rio de Janeiro visto de fora

Hugo e Carol aprendendo a amar o Rio.

Hugo e Carol aprendendo a amar o Rio.

Rio de Janeiro e saudade que dói.

Rio de Janeiro e saudade que dói.

Era julho do longínquo ano 1993 e eu dava meus primeiros passos como fotógrafa, trabalhando no Jornal O Dia, no Rio de Janeiro. Minha editora me enviou para fotografar mais uma das muitas manifestações que fazem da Igreja da Candelária, no centro da cidade, seu ponto de partida. Enquanto esperávamos a meia dúzia de gatos pingados, eu e a repórter vimos um grupo de meninos de rua que lavavam o chafariz que está na frente da Igreja. Aquilo nos chamou a atenção. Eles estavam trabalhando duro. Baldes, escovas, sabão. Tiravam o lixo que tinha dentro e esfregavam tudo o que podiam.

Fomos nos aproximando devagar. Uma coisa que a gente aprende desde cedo no Rio de Janeiro, é que os meninos de rua não tem nada o que perder e por isto são absolutamente imprevisíveis. Mas fomos bem recebidas. Perguntamos porque estavam limpando o chafariz e eles disseram que aquele lugar, no centro de uma cidade que os ignorava, era sua casa e precisavam de um lugar limpo para tomar banho. Fiz fotos. Estavam felizes de posar por algo positivo. Riram, brincaram com minha câmera. E mostraram que não era só pelos roubos praticavam na vizinhança que estavam ali. Que também eles trabalhavam.

Não pudemos ficar muito mais tempo com eles. A manifestação começava e era esta a nossa pauta. Menos de 12 horas depois, naquela mesma madrugada, dos 14 meninos que fotografei, oito estavam mortos. Assassinados por policiais militares na que foi conhecida como a Chacina da Candelária.

Lembrei destes meninos esta semana, quando mais uma vez o Rio foi sacudido por outra tragédia. O assassinato do médico na Lagoa Rodrigo de Freitas, por, supostamente, um menor de idade, chegou aqui na Espanha em forma de dor pela família deste médico e pela nossa cidade. Andei lendo tantas matérias estes dias, que senti vontade de também escrever daqui da minha distância segura e saudosa.

Uma das coisas que li foram depoimentos de gente que, como eu, mora na Europa, agradecendo o fato de não estar no Rio e terminando com um pedido: “quero minha cidade de volta!”. Ué, mas o Rio ficou violento só agora? Assim, da noite para o dia? Que eu saiba, esta cidade vive de tragédia em tragédia há muito tempo! A Chacina da Candelária vai fazer 22 anos! O que foi feito verdadeiramente por estes meninos? Estou cansada que me convidem para vestir luto pela cidade! Já usei demasiadas vezes.

Poderia listar infinitos absurdos que vi, que vivimos todos os cariocas, em primeira pessoa. Que mobilizaram a população. Que nos chocaram a todos. Mas parece que a cidade que se quer de volta se refere a apenas aos quarteirões ao lado da Lagoa. Onde, sempre foi a assim, a vida tem muito mais valor que nos subúrbios afastados e esquecidos. Sinto comunicar, mas a visão desta que mora fora há dez anos é que tudo continua mais ou menos igual. O que é o mais triste. Vivemos a espera de uma próxima tragédia que nos fará esquecer a passada. A cidade que eu quero de volta, eu nunca cheguei a conhecer: uma mais igual. Mais horizontal. Que a verticalidade seja só a da geometria dos morros, não da sociedade.

Apesar de conhecer muito bem a cidade de onde venho, e talvez por isto mesmo, não existe ano que não queira passar minhas férias aí. Que não queira levar meus filhos pelas ruas do Rio e ensinar o prazer da carioquice. Mas nos últimos anos o que me espanta não é tanto a violência, até porque todos meus amigos parecem bem mais tranquilos. Tinha tempo que não via ninguém nervoso, vendo caras suspeitas por todos os lados. O que espanta mesmo são os preços e, mais ainda, a normalidade com que se assume estes preços como algo normal.

Em algum momento, depois a escolha do Rio como sede das Olimpíadas e do próprio crescimento econômico do país, que colocou mais gente na roda do consumo, se assumiu que o Rio era uma das cidades mais caras do mundo para se viver, que era realmente maravilhosa e que isto se paga. E ouvi gente dizendo isto com orgulho! Parece que o carioca realmente acredita na cidade “dos encantos mil”. Amo minha cidade, mas ela tem um trânsito horroroso, serviços péssimos e violência. Como pode um aluguel no Rio ser o dobro de caro que em Barcelona?

Talvez a cidade começasse a mudar de fato quando a gente desse menos valor às nossas belezas naturais e começássemos a valorizar muito mais a outras coisas: escolas e saúde públicas de qualidade, acesso a bons transportes e comunicações, a cultura para todos. De leste a oeste. De norte a sul. Do Leme ao Pontal. Não apenas exigir que políticas de segurança funcionem como passes de mágica, que façam desaparecer para dentro uma cartola infinita todos os infratores desta cidade. Assim, da noite para o dia. Como resposta a cada tragédia. Políticas de longo prazo é o que se precisa. E deixar de olhar apenas para o mar e olhar para dentro da nossa pobre, sofrida e amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

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