Filhos do coração

Dessa vez, tive a imensa alegria de poder convidar minha mãe, Elane Frossard Barbosa, para nos contar a experiência que ela tem com adoção, um tema que margeou toda sua vida.

 

Esta semana, comemorou-se no Brasil o dia da adoção, data que tem um significado muito especial para mim e para minha família. Para mim, adotar, não é só um ato de generosidade de quem adota, mas muito mais um presente que recebemos.

A adoção sempre foi uma prática comum em minha família e me deu tias, uma irmã e, finalmente, uma filha adotiva. Minha mãe teve irmãs adotivas que sempre foram suas melhores amigas. Já casada, adotou uma menina que foi minha irmã mais querida, com quem eu tinha uma afinidade imensa. Infelizmente, ela se foi há mais de 15 anos, e sinto sua falta todos os dias, assim como meus filhos sentem a falta da tia Bebel.

Aqui em casa, tivemos a oportunidade da adoção quando uma prima da minha mãe faleceu durante o parto do sexto filho, deixando cinco crianças. Pouco tempo depois, o pai também morreu. Sabendo da dificuldade dos pequenos, um dos meus tios pediu ajuda aos familiares e cuidou de distribuir as crianças. Coube a mim ficar com uma menina de sete anos, a mesma idade da minha filha mais velha. Ela estava abrigada com outros parentes numa casa na periferia de uma cidade no interior de Minas.

Eu e meu marido decidimos ficar com ela justamente quando preparávamos para estudarmos nos Estados Unidos. Foi um imenso desafio. Primeiro, focamos em cuidar de sua saúde, regularizar suas vacinas, tratar de uma bronquite asmática. O segundo passo foi ajuda-la na adaptação à uma cidade grande, a uma nova escola e ainda prepara-la para vivenciar outro idioma e ir morar no exterior. Em paralelo, organizamos os papéis de adoção para obter o visto necessário.

Adotar uma criança com sete anos quando já se tem filho da mesma idade e outro mais novo não é fácil. A criança já vem com grande parte de sua personalidade quase formada e os filhos não entendem muito porque ganharam uma irmã que já era grande, mas conseguimos superar tudo e levá-la para os Estados Unidos.

Ela sempre foi uma criança de personalidade forte e tagarela, o que ajudou na sua adaptação. Tivemos que doar muito de nós e curar muitas feridas dela. Para se ter uma ideia, um dia, quando morávamos no exterior, voltei da faculdade e encontrei as três crianças chorando muito, praticamente aos soluços. Assustada, perguntei o que tinha acontecido e eles responderam que estavam brincando de “mamãe que morreu”. Resolvemos, então buscar apoio com psicólogos recomendados pela universidade. Eles nos explicaram que esse tipo de “brincadeira” era muito comum, afinal, ela queria chorar a morte da mãe da qual não se lembrava mais e conseguiu influenciar as outras crianças a fazerem o mesmo.

Na época, também enfrentamos o preconceito de muitos à nossa volta. Certa vez, as meninas chegaram em casa muito tristes porque a secretaria do clube do condomínio onde moramos, na Barra da Tijuca, não queria dar a ela uma carteirinha para frequentar a piscina. Eu e meu marido tivemos que ir lá e explicar o que é uma certidão de nascimento e o que é adoção aos funcionários do clube. Hoje poderíamos até processá-los.

Assim, de acertos e tropeços, conseguimos criar mais uma filha, generosa, carinhosa e que passou a ter o mesmo lugar no nosso coração. Cinco anos após a adoção, tive mais um filho, o que ajudou ainda mais a estreitar os laços dela com todos. Aquele era o irmão de verdade que ela ajudava a tomar conta. Hoje são muito ligados.

Em 1987, meu marido, então deputado constituinte, ligou um dia para casa e pediu para falar com ela. Ele havia conseguido aprovar uma emenda na Constituição que dava ao filho adotivo os mesmos direitos que o filho biológico. Essa emenda resolveria casos como disputas por heranças e até direito a plano de saúde. Essa emenda foi uma homenagem à minha filha e fruto do aprendizado que tivemos com ela.

Tantas crianças precisam uma família e tantos casais querem ter filhos e não podem. Minha experiência é a de que a adoção é gratificante para ambos os lados. Dá trabalho? Dá. Assim como nossos filhos biológicos também dão e eu posso falar pois tive os dois. Não me arrependo em nenhum instante e, pelo contrário, se minha vida tivesse sido mais tranquila teria adotado outros. Amo meus filhos incondicionalmente e até me esqueço que um dia adotei uma menina. Ela é minha filha do coração e a amo do mesmo modo que amo os outros.

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