Eleições pela segunda vez na Espanha

Um turista brasileiro que desembarque neste momento na Espanha, dificilmente perceberá que em 10 dias teremos eleições municipais, que elegerão os prefeitos (alcaldes – amo esta palavra, lembra filme do Zorro) de todos os municípios do país. Isto porque aqui não tem propaganda eleitoral obrigatória no radio e na televisão, não tem gente na rua  segurando um cartaz com cara de tédio e cansaço, não tem carreata, muito menos showmícios. Mas as eleições já estão aqui e são tão importantes quanto em qualquer país. Eu, por segunda vez, terei a oportunidade de votar neste meu país de adoção. Oportunidade, não obrigação. Porque, essa é uma das grandes diferenças: votar é opcional.

O processo eleitoral em um país parlamentarista, como é o caso deste aqui, é tão diferente do nosso, que ainda não consegui chegar a conclusão se é melhor. As diferenças não terminam na não obrigatoriedade do voto. Aqui não se pode votar em uma pessoa, apenas na legenda. Quer dizer, não posso votar para prefeito em um candidato de um partido e para vereador em outro, de outro partido. Impossível. Aqui só podemos votar na legenda. Escolher uma lista de candidatos de um determinado partido e votar inteiramente nela. Sem excessão. A vantagem que vejo é que aqui os partidos políticos são muito mais fortes que no Brasil. Não existe partidos fracos com um nome popular(como o palhaço Tiririca do Partido da República), que puxe a legenda. Ainda bem! Mas o lado ruim é que o cidadão não tem nenhum poder de escolha sobre os candidatos. Está totalmente na mão dos partidos políticos.

Outra grande diferença é que aqui nem sempre quem ganha leva. Se o partido mais votado não conseguir maioria absoluta no parlamento, tem pactuar com os outros partidos para eleger o prefeito, ou governador e até mesmo o presidente de governo. E aí nem sempre a coisa é fácil. Um exemplo foi no País Basco. Nas eleições de 2009,  o partido mais votado foi o Partido Nacional Basco. Mas como não conseguiu a maioria absoluta no Parlamento, o Partido Socialista se uniu com seu arquirival, o Partido Popular, e assumiram o governo, tirando os nacionalistas do poder depois de  quase 30 anos.

As eleições deste ano serão bem acirradas por causa do surgimento de um novo partido: Podemos. Este partido nasceu com a crise econômica e está atraindo o voto mais jovem, cansado de ver o Partido Popular (de centro-direita) e o Partido Socialista (de centro-esquerda) continuarem a dividir o poder, fazendo uma política econômica muito parecida uma com a outra. Neste quesito, Podemos promete uma política econômica mais independente, que não baixe a cabeça para todas as ordens que venham da Comunidade Européia e do FMI. Já estão em segundo nas pesquisas eleitorais. Embora aqui as pesquisas sejam muito menos confiáveis que no Brasil, pois nunca se pode saber quantas pessoas vão se abster de votar. Mas o certo é que Podemos está balançando as velhas instituições e isto sempre é bom. Depois de oito anos de crise econômica, com 21% de desemprego, o povo espanhol precisa mais que nunca de um motivo para ir para as urnas. Aqui o desencanto está em todas as partes.

E eu estou feliz de poder votar. Gosto de votar. De sentir que faço parte do processo que decide as questões mais básicas do nosso dia a dia. Por isso, próximo dia 24, pegarei minha carteira de identidade (aqu não existe título de eleitor) e irei ao colégio público que temos em frente de casa para votar. Na esperança que meus filhos possam seguir frequentando esta mesma escola pública de qualidade.

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