Crianças a bordo, tome seu Rivotril

Eu adorava tirar cochilos no avião. O barulho da turbina sempre embalou meu sono e nunca tive problemas em dormir na poltrona econômica mesmo se um gordão se sentasse ao meu lado. Também adorava ver filmes, ler um livro ou escutar músicas acompanhada de meus pensamentos. Até ter filhos.

Quem não tem filhos entende quando digo como pode ser chato viajar com uma criança pequena no assento perto ao seu. Eu já estive do “lado de lá” e toda vez que via um bebê ou uma criança pequena na porta do embarque já torcia para que ela se sentasse no extremo oposto ao meu. Mas acredite, quem tem filhos entende mais ainda a merda que isso pode dar. E essa mãe ou esse pai sofrem muito mais do que você que queria estar todo pimpão e relax no seu voo.

Há uma semana eu fiz acho que a pior volta para casa da vida. Do Brasil a Republica Dominicana em mais de 12h e uma escala. Aí você diz, “ah, nem é tão longe assim, e qual o problema de uma escalinha só…”. Problema são 12h de uma viagem DIURNA, dois vôos e duas crianças com respectivamente 3 e 1 ano.

Não dormiram, não sossegaram, não queriam ficar sentados (a baby ainda no colo no esquema revezamento entre pai e mãe), não comeram, choraram, chutaram a poltrona da frente 63 vezes, rolaram 2 trocas de fralda com cocô em turbulência, 46 passeios ida e volta no corredor com a pequena que flertava com todos, enfim, rolou tudo. Só nao rolou relax, filme, cochilo ou música. E mal fiquei sentada.

Rolaram também os olhares. Daquela mãe que já deve ter passado por isso e tinha uma cara com misto de pena de nós com sono por não ter podido dormir direito. Daquele cara que no comecinho da viagem ainda estava simpático fazendo graça para a Nina (a de 1 ano), mas que do meio para o final já olhava para a nossa família de quatro com uma certa raiva por termos arruinado a tranquilidade dele. E esse final da viagem parecia nunca chegar. E quando ele chegou eu mal conseguia olhar para a cara das pessoas. Quando consegui, até desculpas pedi.

Ah, também teve novidade no aeroporto da escala.

Teve boca sangrando com corte após uma queda estilo mergulho no chão do mais velho de 3 anos, que corria ensandecido de na verdade puro cansaço. Minha blusa ensanguentada sem poder ser trocada por não haver uma step (nunca façam isso, levem sempre uma troca de roupa também para você). Teve correria para não perder o segundo vôo e teve suor de estar num lugar aparentemente com ar condicionado quebrado e por baixo uns 30 graus ambiente.

Eu estava exausta, e tudo o que eu queria era ter um segundo vôo de tranquilidade e sono, mesmo com a minha blusa ensanguentada. Mas aqui em casa, talvez na sua também, meus filhos parecem ter um trato entre eles: dormir apenas nos 15 minutos finais da viagem, naquele momento que você já até sente o avião perdendo altitude e todos os passageiros devidamente afivelados. A aterrissagem sempre ótima, uma maravilha, filhos da mãe.

Chegando no aeroporto, mais uns 40 minutos até finalmente chegar em casa na volta do aeroporto.

Eu jurei que viajaria novamente só daqui pelo menos um ano. Porque no mínimo seriam necessários bons meses para destraumatizar. Mas é claro que já desisti, afinal meus filhos não conseguiriam ficar tanto tempo dos primos e nenhum expatriado consegue ficar tanto tempo longe da verdadeira casa.

Ah! Sim, já me sugeriram o Dramin, mas esse deu efeito contrário no mais velho quando tentei ter uma viagem relax. Ele parecia um border colie num circuito de agility tamanha agitação. Então sugiro a você, que não é mãe nem pai, tomar seu Rivotril se por acaso me encontrar no portão de embarque, tá?

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