As mentiras que a gente conta

 

Nas portas da imaginação

Nas portas da imaginação

Em busca de aventuras.

Em busca de aventuras.

Outra noite, antes de dormir, Hugo tirava algumas dúvidas comigo:

– Fantasma existe?

– Não, não exite.

– E monstro?

– Também não.

– E dinossauro?

– Dinossauro já existiu, mas não existe mais.

– E a fada dos dentes?

Na dúvida sobre o que responder, afinal disse:

– Existe, mas tem que escovar os dentes todos os dias para ela que traiga uma moeda, quando você trocar teu dente de leite.

– Mas mamãe, quem traz a moeda é Ratoncito Perez. (na Espanha Ratoncito Perez é quem troca o dente de leite por uma moeda).

– Ah…é que a fada dos dentes tem muito trabalho, levando moedas as todas as crianças do mundo, então, ela pediu a Ratoncito Perez que cuidasse das crianças da Espanha…E vamos dormir!

– Mamãe, e dragão?

Pois é, vamos dormir porque eu já estava vermelha. Minto super mal, fico imensamente constrangida. E fiquei na dúvida, é mentira quando tentamos não destruir a fantasia infantil assim logo cedo? Porque Hugo, por exemplo, não perguntou por Papai Noel. Ele tem certeza absoluta da sua existência. E nós fazemos o possível para não romper com esta magia. Mas e todos os demais seres fantásticos? Fadas, fantasmas, duendes e Rantoncitos Perez da vida? Não são parte da mesma fantasia? Como dizer que então que fastasma não existe, mas uma fada que entra de madrugada e troca o dente de leite por uma moeda, sim existe? Isto é mentir ou é entrar no jogo da fantasia?

Eu fico maravilhada com a imaginação das crianças. Adoro ver aos dois brincando, fazendo as vozes dos seus bonecos. Na verdade, para eles tudo é possível. Não existe separação entre o sonho e a realidade. É tudo parte de uma mesma coisa. Esta divisão quem faz somos nós adultos. Para eles não. Para eles, uma borboleta voando e um dragão que cospe fogo são iguais de surpreendentes e fantásticos.

Eu lembro que também já tive passaporte deste mundo. Lembro que a árvore que tínhamos em frente a cada da minha avó no Rio (o mais lindo dos Flamboyants) se transformava em barco pirata, nave espacial e navio do Jacque Cousteau. O armário embutido do quarto das minhas irmãs era a entrada para um castelo mágico. E lembro de todas as histórias do Sitio do Pica Pau Amarelo, que amava. E que fiquei bastante decepcionada quando meus pais nos levaram para ver a cidade cenográfica, onde rodavam as histórias de Monteiro Lobato, e vi que a Vila de Tucanos ficava ao lado do Sitio. E que não existia de verdade. Era só uma fachada. Foi uma pena.

Enquanto puder, quero que meus filhos acreditem na fantasia. Que creiam na possibilidade da mágica. De outros mundos possíveis. Mas meu lado mãe protetora não quer que eles acreditem em seres do mau, como fantasmas, zumbis e monstros. Mas não são também parte da fantasia? Como dizer que estes sim existem e estes outros, não? Sentir medo também é importante. E mais ainda, saber o que fazer com este medo. Descobrir seus limites. Enfrentar ao desconhecido. Crescer. A fantasia também é parte deste crescimento.

Então, embora contraditório, tento pensar que não minto aos meus filhos quando digo que Ratoncito Perez traerá uma moeda para ele, quando cai seu primeiro dente de leite. Que ajudo ao seu crescimento alimentando sua imaginação. Que mundos imaginados podem mudar o mundo real. E que demore em descobrir que monstros sim existem no mundo das pessoas grandes. Mas até lá espero que os dois possam trazer as armas de fantasia para enfrentar estes e outros muitos perigos do chamado mundo real.

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