A mãe do Guto

Para celebrar o dia das maes, estamos muito felizes em poder homenagear a mães a quem admiramos. Estes são Dani e Guto, lá do Recife. Uma história de aprendizado, valentia e muito, muito amor.

Dani e Guto

Dani e Guto

Eu sempre brinquei que “fiz” Guto num carnaval.  Quando queria justificar a sua personalidade alegre e sorridente, assim como o furacão que ele causou na minha vida, falava, “esse menino foi feito no meio do carnaval!”, emendando com umas risadas.

Fui mãe aos vinte. Guto nasceu em novembro, nove meses depois da folia momesca.   Eu nem planejava engravidar. Amava o pai dele, com quem tinha um namoro e aconteceu. Ficamos juntos durante a gravidez, mobiliamos uma casa para viver juntos e compramos enxoval do bebê, ele até mandou fazer um berço especial, personalizado.

Em 14 de novembro de 1996, nasceu o Augusto Cezar e a minha vida de mãe se iniciou de uma forma bem diferente.  A começar pelo médico, me dando a notícia que o bebê tinha Síndrome de Down e junto fazendo uma previsão do que meu filho não seria. “Seu filho nunca poderá ir a uma universidade, seu filho nunca terá uma vida independente” , disse, à beira do meu leito, enquanto eu amamentava meu bebê! Medicina humanizada? Há 18 anos?  Não existia.  Isso foi bem antes da Regina Duarte ter uma filha com Síndrome de Down numa novela das oito, na Globo. Rsrsrsr   Regina ensinava, de forma didática, um pouco de inclusão. Regina tentava dizer ao povão que tratava-se de alguém.  Sou brincalhona e sempre digo que na minha vida e de Guto existe o A.R.D. e D.R.D., abreviatura para antes de depois de Regina Duarte ter uma filha com deficiência na novela. É uma zuêira, pois só humor sustenta o relato de uma época onde um plano de saúde não aceitava uma criança com Down porque   “era uma caso com doença existente”.  Esse foi nosso primeiro processo, pelos direitos de Guto.

Depois, o médico me deu o livro “Muito prazer, eu existo”, da Claudia Werneck.  Lembro que folheei o livro inteiro, rapidamente, só pra ver as fotos.  Estava curiosa com a aparência de pessoas com SD.  Horas mais tarde, saí do quarto para andar pelo corredor do hospital e ,  longe do Guto,  chorar escondido. Chorei pra caramba! Quando  me percebi, tive vergonha de mim.  Porque haveria folheado aquele livro desesperadamente em busca de fotos? Temia a aparência de Guto? Temia ter um filho especial ? Temia algo que eu nem conhecia ou era puramente preconceituosa? Seria a perda do filho sonhado?

Decidi que dali em diante não faria projeções e nem esperaria nada.  Enxuguei as lágrimas, meu leite jorrou e fomos vivendo um dia de cada vez.  Amamentei um ano e meio.  Foi me tornando uma mãe, que também me tornei uma pessoa melhor.  E hoje, aprendi a sorrir para as pequenas coisas.

Constantemente ocorre a pergunta:  ele não fala?

E eu sempre penso:  obrigada, Deus, ele caminha!

É tão maravilhoso caminhar! Ser mãe me ensinou a agradecer, ao Universo, a todas as forças positivas do mundo, o privilégio das pequenas felicidades. Moldei a minha alma, num pranto de alegria, gratidão. No reconhecimento de pequenas coisas, como um primeiro passo de um filho, todos os dias.

E surgiu aquele amor incrível dentro de mim! Aquele que está dentro de todas nós, mães! Aquele que podemos sentir na bochecha dos nossos bebês, no toque, no abraço e em todos os olhares cúmplices.

Com oito dias de nascimento do Guto, o pai dele nos deixou. Passados 18 anos, nunca veio visitar o filho. Aprendi que ser mãe é resignar e nunca julgar.  Que muitas vezes é guardar segredo.

Fomos sorteados para viver uma realidade difícil, a das pessoa com necessidades especiais.  Sem expor detalhes, Guto fora diagnosticado autista e posso garantir que não é coisa fácil.  Distúrbios do sono, metabólico e comportamental são coisas difíceis de lidar. Se Deus ajuda a quem cedo madruga, certo que ajuda as mães que nunca dormem direito. Sou uma apenas mais uma delas.

Nada, nada mesmo , impede a gente de ser feliz. Quando penso em ter uma baixa diante de qualquer dificuldade da rotina, me inspiro nele, astral maravilhoso, sempre sorrindo! Mesmo diante de tanto preconceito e dificuldades de comunicação.  Sim, o preconceito ainda existe! Apesar do mundo estar muito melhor,  com ensaios politicamente corretos que colocam os egos a prova diariamente,  moldados pelas mídias digitais, sim, na real,  ainda escutamos bastante  frases bizarras por aí.

_Ele é agressivo?   (oi?)

Eu, quando de  TPM , respondo: _“E vc, é agressivo?”   ou então “Ele é calmo, mas eu sou agressiva”, rsrsrsrs

Como diria a minha mãe, “ na vida, a gente tem que se conectar apenas com vibrações positivas”. Vamos rir e seguir em frente. Minha mãe foi a base para enfrentarmos tudo.

Nunca vou esquecer um momento em que estávamos na cozinha conversando e ela estava fritando um ovo para mim. Um ovo frito perfeito. Perguntei onde aprendera a fritar um ovo daquele jeito tão perfeitinho, ela respondeu, rindo : “Quando morávamos no sítio, eu com 13 anos,  tinha que fritar os ovos para meus  dez irmãos, antes de fritar o meu para me alimentar. E foi assim, que sua mamãezinha aprendeu a fazer esse ovo perfeito”. É isso. Antes da minha mãe, tem a minha avó. E ela teve onze filhos!!!  Talvez de uma forma simples , sem amarras na hora de se doar, promovendo união e afeto a cada dia, ela conseguiu parir e criar onze pessoas nesse mundo!

Minha mãe saiu do sítio, virou mulher sabida, pratica meditação transcendental, toca violino, viaja o mundo, mas sempre que pode, me dá uma lição linda de união, paciência e doação. E também me ensinou a fritar ovo, rsrsrsrs. E a fazer mil coisas dentro da casa e cozinhas de minha vida.  Ser mãe é trocar conhecimento.

Dia desses, estava viajando com Guto e no avião, eu portava um arsenal: a comida especial dele numa lancheira refratária, os livros sonoros e brinquedos favoritos, remédios, roupa reserva pois ele fica nervoso e pode ter incontinência,  remédio de ouvido,  calmante, receitado por uma neuro, laudo médico autorizando a viagem… Ufa! A prévia foi mais uma conversa com ele, olho no olho, explicando que iríamos viajar e que precisava da ajuda dele. Para que ficasse quietinho, na cadeira do avião, mais uma vez.  E foi o que ele fez! Sem calmante nem maracujina, tava o menino parecendo um lord inglês, educado, arrumado e curtindo voar. Recebeu até elogio da aeromoça.

Eu vibrava por dentro! Um momento tão simples e eu já nem cabia em mim!  A vivência social é uma vitória pra nós! Requer coragem, paciência e perseverança, do autista e sua família.  Me lembro que nessa ultima viagem, que seria longa, eu levei dez iogurtes na bag freezer. rsrsrsr

Ao lado de nós havia outra mãezinha, com um bebê no colo, que aparentava uns dez meses. Ele fez sinal com a mão, apontando para o danone que o Guto comia. Ofereci e disse a mãe que tinha mais um monte na bolsa e ela negou, dizendo que daria o peito.  Guto adora bebês, rasgou o sorriso para o pequeno e eu me apressei em fazer amizade.

_ que neném fofinho, parabéns!

_ É fofinho mas dá um trabalhão!  A mãe respondeu, com cara de exausta!

Lembrei da minha avó e da minha mãe, fritando ovo, enquanto olhava aquela mãe , o bebê e o peito. Triangulo perfeito da facilidade. Me senti uma doida com meus dez iogurtes numa mochila enorme.

Cada caso é um. Não precisa julgamento, quando envolve sentimento.

Só sei que pra medir mãe, não tem régua. Cada uma faz do seu jeito. Em todas, sei que existiu um pranto feliz, de gratidão. Uma sensação de benção divinal.  Tenho certeza, que cada mãe já se surpreendeu com a própria capacidade de adaptação e força. Ou ficou feliz ao descobrir-se mais  inteligente e perseverante do que imaginava ser. Orgulhosa ao reconhecer o seu apurado senso de observação. Emocionada ao experimentar a ciência da paz, a paciência. A mutação feminina de ser doce e felina.  Em turnos alternados.

Somos a bússola de alguém e isso nem de longe é pouco.  Ser mãe sempre é se dividir.  Servir. Mas é também evoluir o espirito e a mente, através da gratidão. Uma construção íntima, que cresce e demanda na rotina.  Por fim, tudo que sei é Guto foi o maior presente que a vida me deu.  Clichês a parte, é a minha experiência de amor.  Sentimentos que me visitam e me transformam em cada dia. Sou grata e feliz por ser a mãe do Guto. Só a alma explica.

Daniela Rorato, a mãe de Guto.

Comentários

  1. Que mulher incrível, que pessoa admirável e que comovente o seu relato, Daniela!
    Certamente os deuses deram ao Guto a melhor mãe que havia disponível naquele momento que ele “foi feito”.
    Um beijo carinhoso para vocês dois e obrigada por compartilhar uma experiência tão dolorosamente rica.
    Graça Salgado, a sogra da Bia Golzi.

  2. Dani, titular certos rótulos são caminhos para fracasso, você transpassou barreiras, enfrentou obstáculos e hoje ensina-nos como ser melhor em obter até o impossível. Obrigada mamãe Daniela e um beijo ao Augusto. De sua irmã Virginia Rorato

  3. Mulher guerreira!!!! Sempre valente e perfeita. Vc é uma mãe maravilhosa, Deus te escolhei para ser a “mami” do Guto…me orgulho de vc…te carreguei no colo..te amo…tia Najla

  4. Que história linda e emocionante, que Mulher, que Mãe vc é, que sorte do Guto tê-la em sua vida. Fiquei muito comovida pois sua Historia se parece muito com a de minha mãe que viúva com 5 filhos já crescidos, teve uma criança com a Síndrome e seu Pai assustado sumiu sem olhar para trás, que triste ele por ter perdido o relacionamento de alguém como o Luiz Fernando, hoje com 20 anos, que triste o Pai do Guto, ter perdido a alegria, a experiencia, o convívio tão especial…Só quem tem um assim sabe o quão grande é o amor que recebemos, infinitamente maior que o que damos. Parabéns pelo Historia, Deus abençoe você e o lindo Guto. Rosa Costa.

  5. Parabéns Dani, por ser está mãe extraordinária! Também tenho um filho com Down. Ele é uma benção! O nome dele é Vinícius e tem 14 anos.

  6. Que lindo seu depoimento. Conheci seus pais quando moraram em Salvador e lembro-me da preocupação e do amor de Tereza pelo Guto. Como o tempo passou rápido já está um homem. Parabéns pelo nosso dia!!! Tambem tenho uma moça dec24 anos especial que é o meu amor maior. Bjs

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