A história de Luciana, a maior amiga do peito que já conheci.

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Maternidade é, por si só,  generosidade. Mas nesse caso, a generosidade transborda e alimenta vários bebês que não o seu. Minha alegria é enorme em poder homenagear a Luciana, que é minha cunhada, mora em Recife, e que acompanhamos  à distância o nascimento de Maria e Artur. Luciana tem uma história linda de amamentação.

Quando minha cunhada, Ana, me convidou para escrever sobre a experiência da descoberta da amamentação e da doação de leite na maternagem eu pensei: eita! Será que dou conta?! Será que conseguirei expressar em palavras o que até aquele momento apenas tinha vivido intensamente?! Será que saberei descrever quão especial foi pra mim viver aquela experiência e que vivo até hoje com meu filho mais novo?! Descrever quanta gratidão tenho e sempre terei por cada um/uma que nos ajudou a ajudar alguém?!
Daí lembrei que, dentre outras emoções, foi exatamente essa questão que me passou pela cabeça ao pegar o resultado do exame de gravidez da minha primeira filha, Maria, hoje prestes a completar seus primeiros seis anos de vida. Naquele momento, assim como agora, o que me pareceu fundamental era saber ali, com aquele papel na mão, se daria conta. Como se a resposta estivesse pronta e definida.
Foram meses de preparação para a chegada dela. De mudanças, no corpo e na alma. De expectativas quanto ao parto. De descobertas quanto à existência das milhares de coisas disponíveis para um bebê (e de como usá-las!) que eu ignorava por completo. De reflexões sobre coisas que antes passavam desapercebidas pra mim e que agora faziam toda a diferença, como dar ou não dar a chupeta e a mamadeira… De imaginar que tudo o que eu e meu marido André fizéssemos seria capaz de refletir em outra pessoa. Que essa pessoa seria uma misturinha nossa! Quanta responsabilidade! Tudo isso apenas ao saber que ela iria chegar…. E sonhamos. Sonhamos bastante em como iríamos transmitir todo o amor que já sentíamos antes mesmo dela nascer…
A gravidez transcorreu da melhor maneira, até o dia em que ela chegou! Com ela nasceu uma família inteira: pai, avó, avô, tio, tia. E uma mãe. E as expectativas deram lugar à prática. Ao quebra cabeça do “tudo-o-que-sei-é-que-nada-sei e quero-o-melhor-pra-ela”. Nessa hora, me veio novamente o pensamento que tive quando soube que ela estava dentro de mim, só que de outra forma: de que, mesmo sem saber se daria conta, eu daria o melhor de mim e estaria sempre ao seu lado.
Na verdade, fui percebendo que aprendemos juntos a ser mãe e filha/filho.
E assim está sendo desde o dia em que me tornei mãe de “duas viagens” (também sou mãe de Artur, dois anos recém completados). Acertando e aprendendo, ou pelo menos tentando, com cada etapa. Aprendendo principalmente a compreender e a valorizar a minha própria mãe que deu o seu melhor e fez de mim grande parte do que sou hoje.
Cada mãe é única, assim como cada filho é uma esperança.
Mas foi com nossas duas sementinhas que recebi uma grata lição através da experiência da amamentação.
Conosco foi mais ou menos assim: Todo mundo já ouviu falar ou tem um grande conselho a dar sobre esse assunto. Mitos existem. Verdades também. Mas a realidade pra mim é que, no começo, é desgastante mesmo. Nem falo em ser difícil. Pois para mães inexperientes como eu, cada cuidado com o bebê apresenta sua dificuldade, tipo trocar a primeira fralda, dar o primeiro banho e todos os outros cuidados com o bebê. Acontece que amamentar é desgastante porque é tudo novo e intermitente. Não há dia nem hora pré marcada.
Então, o que a princípio parecia ser natural e simples, se apresentou para mim e para minha primeira filha como um desafio. Uma faminta. A outra cansada. Sem julgamentos quanto aos caminhos de cada mãe, a certeza que eu tinha desde o início era a de que queria imensamente viver essa experiência com meus filhos. Mas o que se apresentava, naqueles primeiros dias, era que, talvez, aquele desejo de amamentar não seria possível. Cheguei a pensar que não teria leite suficiente para alimentar meu bebê…
Então, quando tudo parecia que ia mudar, eis que apareceram anjos em nossas vidas. O primeiro deles, uma tia querida e experiente que nos mostrou como superar aquele momento de adaptação. Que fez com que Maria e Artur mamassem já na primeira hora de vida, na sala de parto. Que nos acompanhou e apresentou aos outros anjos que nos mostrariam como poderia ser diferente. Como poderia ser mágico e prazeroso aquele momento de troca e de cumplicidade entre nós. Momento que passou a ser aguardado por mim também, que simplesmente vibrava com a graça de poder oferecer tudo que eles tanto precisavam e que, na primeira experiência como mãe, eu não estava conseguindo/sabendo oferecer. E esses anjos também nos mostraram que, na verdade, o problema que enfrentamos no início era o de que eu tinha leite de sobra, que precisava ser retirado para que pudesse vir mais. Daí, quando seguimos o que aprendemos e acima de tudo os nossos instintos, o leite passou a jorrar quanto mais eles sugavam e sugavam. Tanto que, de repente, passava a ter que voltar pra casa porque a blusa estava ensopada de leite. Quanta alegria!
A partir dai, com dias de vida, minha filha me ensinou, na prática, uma lição que serei eternamente grata: a de que quanto mais se dá, mais se recebe!
Começamos a tirar leite para doar aos bancos de leite de nossa cidade, Recife/PE.

E, como uma corrente de amor, algumas mulheres, mães, foram entrando em contato conosco para saber se poderíamos contribuir com um pouco que fosse para alimentar seus filhos.
Isso passou a ser uma missão para nós. Uma missão diária. Intensa. Viva. Que me dava uma alegria imensa em poder retribuir aquela dádiva alcançada. Que me permitia espalhar todo aquele amor que transbordava junto com aquele pequeno gesto, para além dos meus próprios filhos. Que nos proporcionou, durante nove meses, toda semana entrar em contato com pessoas tão dedicadas aos outros, que tornavam possível toda aquela corrente de amor acontecer. Pessoas como seu Manoel, que religiosamente vinha buscar os vidrinhos de leite para os gêmeos, que com esse complemento e com o leite da própria mãe, se alimentaram de leite materno exclusivo até os seis meses! Ou como um pai que vinha do interior só para pegar o leite “forte”, como ele dizia, para seu filho. Ou ainda das funcionárias das maternidades que vinham muitas vezes por conta própria buscar ajuda para “seus bebês”. Desconhecidos que, graças à disponibilidade dessas pessoas, ficarão eternamente ligados pelo vínculo da solidariedade em nossos corações.
Agradeço até hoje os benefícios dessa vivência. Os amigos que fizemos. As pessoas que admiramos e que nos inspiraram ao longo desse período. Aqueles que continuam esse trabalho lindo de forma incansável.
A cada familiar e amigo que contribue para que uma mãe tenha o apoio na medida e na forma necessária para viver plenamente esse momento único.
Ganhamos nós. Muito mais do que doamos. Experiência. Carinho. Gratidão.

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Obrigada, por me proporcionar “deixar vir de dentro” e reviver essa descoberta tão preciosa para mim.E, após revivê-la, por perceber que a questão que tanto me recorre é apenas mais um aprendizado a ser vivido.

Sou Luciana Bemfica. 34 anos. Mãe da Maria, 6 anos, e do Artur, 2 anos.

Comentários

  1. Emocionadissima!! Um orgulho… o sentido da nossa vida. Dar e doar o que temos de melhor!! Isso é pra ser lido e seguido!!! Gratidão. Saudades.. Bjs

  2. Lindo texto. Somos testemunhas dessa bela vivência maternal e, claro, com muita alegria, só nos resta dizer que a gratidão é eterna pelas duas criaturinhas que você e André trouxeram para alegrar mais ainda a nossa vida e família. Te amamos. Beijos, painho

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