Parkour não é para mim – Missão impossível 3

Lembra da série de como é viver perrengues por aqui? Chegamos ao último episódio, dessa vez já foi em terras britânicas. Lá vai.
Eu sempre tive problemas com chaves… e com celulares também. Assumo, e já prometi tentar melhorar.
Mas dessa vez não foi culpa minha. Ou foi? … Não sei…
Era o sábado anterior a começarem as férias de inverno, dezembro aqui em Londres. Miguel não estava naquele final de semana, e eu tinha convidado um amiguinho de Lucca para um programa: brincadeira, almoço e cinema.
Na hora marcada a campainha toca… O porteiro eletrônico, graças a uma reforma que o vizinho fazia, não funcionava. Eu que estava preparando um lanchinho para os meninos, peço para Lucca abrir a porta para o amiguinho. Lucca não vai. Dou um pause na função lanchinho, saio para abrir o portão: deixo a porta aberta, não pego a chave, era só abrir o portão. Cuca, nossa cachorrinha, vem atrás de mim, toda fazendo festa para a família que chegava. Olho para trás e ainda dá tempo de ver Lucca saindo de meias, camiseta e fechando a porta atrás dele. NÃÃÃOOOOOO! A porta de casa é daquelas que só se abre por fora com a chave.
OK, muita calma nessa hora. Não adianta dar bronca, xingar a mãe da chave, e a sétima geração do infeliz que inventou esse sistema. Eu estava sem celular, com todos para fora, sem agasalho, com frio, e super gripada. Poderia ser melhor? Sim, mas Murfy é implacável. De quebra nenhum vizinho estava naquela manhã, todos aproveitam para visitar amigos nessa época.
Qual o jeito? Pular o muro. Já tinha feito aquilo antes, não ia ter problema, pensei. O pai do amiguinho se posicionou: “acabo de fazer uma cirurgia no joelho, não posso forçar, senão eu ia.”Sou do tipo que desde pequena gostava de subir em árvore, já fiz várias estripulias no quisito: rapel, voei de balão, desci tirolesa das grandes, voei de paraglider, até de paraquedas já saltei. Na lista falta ainda asa-delta que espero ansiosa o dia de saltar, mas só no Rio de Janeiro. “Não se preocupe, já esqueci a chave lá dentro, já fiz isso antes. Eu mesma pulo”, falei do alto da minha segurança.
E lá fui eu, com platéia me assistindo dessa vez… Pé no vaso de planta, outro na janela, , os dois pés na janela, apóia as mãos no beiral, um pé no beiral… cuidado que o beiral está molhado… choveu à noite… quase lá, impulso com os braços, outro pé no beiral… xiiii , escorregou o pé… oh oh… estou perdendo o equilíbrio… meu Deus só faça que na queda não me aconteça nada de grave, são mais de dois metros daqui, o vaso está embaixo, que eu não caia de cabeça, nem bata a coluna… meu Deus me ajuda, tô sozinha com Lucca aqui em Londres, não pode acontecer nada de grave…
Da queda tenho na minha memória o barulho de minha coxa da perna direita batendo na beira do vaso de cerâmica. Na hora não conseguia mexer a perna, nem sentir a dor, mas por fora da calça já se via como se tivesse apertado o rolo de macarrão num bolo de massa de modelar. Menos mal, só conseguia agradecer a todos os santos que nada de mais grave tinha acontecido.
Mas, ainda tínhamos o problema, quer dizer, agora mais um problema.
Esperei mais um pouco e consegui levantar. Não chorei. Então, o pai do amiguinho se dispôs a subir, até uma parte do caminho, e colocar o filho, que era menor e mais leve ,para dentro de casa. Deu certo. Ufa!
A essa altura minha perna já doía bastante, muito mesmo. Foi o dia inteiro entre gelo, anti-inflamatório, eu tentando dar conta do recado, da dor, e dos 3 lances de escada para atingir meu quarto. Lucca ao redor colaborando. Era muito difícil mover e o hematoma só aumentava. Minha maior preocupação mesmo, era perder a viagem de final de ano, que tínhamos planejado com tanto carinho, e para um destino de meu sonho. Em 5 dias eu deveria embarcar em um vôo longo… e como ia ser? E o coágulo do inchaço?
Miguel chegava no dia seguinte, domingo. Decidi esperar por ele para ir ao hospital. Vai que aqui eles decidem me internar por insanidade… (risos), sozinha não podia ir.
Entre a tentativa de atendimento no hospital público, dois dias de diagnóstico em hospital privado, fazendo até ressonância por uma desconfiança de fratura do fêmur, o que tive mesmo foi ruptura do músculo, um lindo hematoma que ainda hoje, quase 5 meses depois, ainda existe, e um medo absurdo de ter uma trombose no vôo para a viagem de fim de ano. “Não posso te dar anticoagulante para viajar porque senão não pára a hemorragia do músculo” , me disse o médico. “O jeito é viajar com meia de compressão, melhoral infantil para afinar o sangue, e na medida do possível deixar a perna para cima.”
No fim adorei passear em cadeiras de rodas pelos aeroportos, evitando filas de imigração, e viajar com um par de muletas me acompanhando. Tive regalias que nem imaginava serem tão boas. Ficaram lindas memórias das férias, e essa história para contar.
De vez em quando a dor dá o ar de sua graça em fisgadas fundas, mas aí eu faço um carinhosinho no hematoma com arnica, e tudo fica bem de novo.
Ah, e assim que Miguel chegou em casa de viagem naquele domingo, ainda tive que escutar dele… “quem manda querer pular o muro quando eu não estou?” Não se preocupe amor, desses esportes radicais, já sei, Parkour não é para mim.

Comentários

  1. Hahahaha, vim passear no blog e acabei de ver que ainda não tinha lido o relato completo. Depois de muitas lágrimas, fechei a noite dando risada. Obrigada Ana. E torcendo para que fique bom de vez, algum dia. Beijos

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