Fora

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Fui criança que sobe, que corre, que cai.
Era como todas menos porque tinha um “cantinho”. Ficava entre a parede e o piano branco que hoje pensando, deveria estar nela encostado. Talvez não estivesse por isso mesmo.
Ali morava com várias de mim.
A que sobe.
A que corre.
A que cai.
Tinha a bochecha quente, o pescoço de brotoeja, pés sempre descalços e encardidos, mas piolho não tinha. Nem medo de bicho, nem nojo de minhoca. Era no silêncio do cochilo dos meus pais que via lágrimas de açúcar a escorrer do pinheiro, formigas subindo nervosas pelo graveto enfiado no formigueiro e também um gato preto, morto na garagem.

Vivia do lado de fora. Fora podia ser árvore, varanda, calçada, playground, curral, caminho, janela, pedra, estrela, cantinho. Eu não cabia dentro.
Pensava que quando fosse grande caberia num fora só pra mim.
Um fora com árvore,
varanda,
calçada,
playground,
curral,
caminho,
pedra,
estrela,
cantinho.
Nunca pensei nesse fora aqui tão longe e menos ainda, que esse nem é mesmo meu.
Quando cheguei, nesse fora tinha areia, um tapete imitando grama e um mato triste, cheio de buracos. Tinha também a Maria-cara-de-pau, que de tão sem vergonha também deu de se mostrar aqui.
Fui plantando nesse fora.
Plantei plumérias, bougainvilles, manjericão, alecrim, hortelã, figo e trepadeira amarelinha. Podei, reguei, amarrei. Conversei muito com elas que me respondiam em árabe, mas acabaram aprendendo português.
Nelas, Antônia encontrou dois ninhos.
Delas já fiz salada, refogado e sobremesa.
Nesse meu fora, andam crescendo outras coisas. Vem trazidas pelos passarinhos e brotam da areia, abusadas e fortes.
Tirei.
Isso porque do céu escutei minha vó dizer que são praga braba, mato.

Tiro tiro.
E elas voltam voltam.
Andei aqui amuada, na dúvida entre escutar o conselho ou deixar o mato crescer.
Pensei que não gosto de poda.
Nem regra, nem nada.
Foi então que lembrei no piano. Do cantinho. Das muitas de mim, e da poesia de Fernando Pessoa.

“Aquela senhora tem um piano.
Que é agradável.
Mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem
Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a natureza”

E deixei o mato crescer.

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