Eu vejo

Era um domingo qualquer e eu assistia relaxada algum filme no apê que eu dividia com minha amiga Maitê. Seria apenas mais um dia de risadas aos 23 anos que não lembraria depois de tanto tempo se não fosse por uma coisa. Enquanto passava o filme, precisei coçar meu olho esquerdo e nesse momento percebi que não enxergava direito a legenda com o único olho que estava aberto, o direito. Então cocei o olho novamente. Deve estar com uma sujeirinha na lente (miopia grau 2 em ambos os olhos), pensei. Não era sujeirinha e não era lente vencida. O que eu via eram mosquitinhos que voavam e não iam embora. Não voam dali para longe. Tem alguma coisa aí, preciso marcar um oftalmo. Segui vendo o filme sem me abalar muito. Também não me abalei nos dias que seguiram e quando decidi marcar o tal médico (alguns dias depois) eu já havia perdido quase toda a visão do meu olho direito.

O que eu tinha era uma inflamação séria e altamente avançada na coróide, uma camada da parte interna do olho toda irrigada por vasos sanguíneos e cheia de nervos. A inflamação matou os nervos e de uma hora para outra e passei a ter apenas uma das visões. Creio que uns 10 médicos de São Paulo me examinaram e nenhum, eu disse NENHUM descobriu a causa da inflamação. Várias causas foram levantadas, entre elas toxoplasmose, diabetes, esclerose múltipla ou outra doença auto-imune. Todas elas descartadas. Por uma lado eu ficava aliviada ao ver os resultados negativos, por outro lado eu sentia medo. Muito medo de ter no meu olho “bom” a mesma coisa e, dessa forma, me tornar cega por completo.

A história não é tão simples e nem tão curta, o que acho mesmo que importa aqui é como eu vivi a minha vida dali por diante. Não lamentei. Não me senti vítima e tampouco deficiente, apesar de ser de alguma forma, ou meia-forma, uma.

Tenho sim minhas limitações. Dirijo mas sempre prefiro “pecar pelo excesso” enquanto o faço. Perdi completamente a noção de profundidade e distância dos objetos próximos. Então, a cada manobra fina, eu até abaixo o vidro e coloco a mão do lado do retrovisor para checar e garantir que não vou raspar na pilastra, o que costuma funcionar bem. Também não consigo ver filme em 3D, não posso mais jogar frescobol na praia e não consigo nem agarrar uma bolinha no ar com a mão. Virei a mão-furada. Talvez não veja os mesmo detalhes que a maioria, nem as cores tão vivas. De resto? De resto vivo absolutamente igual a você que tem os dois olhos saudáveis. Não vejo o filme 3D mas tudo bem, vejo o mundo da minha forma, mas o vejo. Nunca deixei de dirigir e me senti segura para pegar a estrada pela segunda vez na minha vida aqui na Republica Dominicana no mês passado. Afinal, eu vejo!

Não são todos que sabem disso, não falo sem claquete para os amigos, desde que alguém um dia toque no assunto. Hoje foi um dia desses.

Uma amiga, contou com muito pesar a história de uma menininha que havia perdido a visão de um dos olhos e a família estava abalada, sem saber como seria a vida dessa pequena daqui por diante. Eu posso dizer que ela viverá exatamente da mesma forma que viveria, exceto por algumas limitações que jamais irão atrapalhar de verdade a vida que ela traçará. O outro olho será o melhor amigo dela, assim como o meu esquerdo é o meu. E será ele que ocupará com o papel dele e do vizinho. Ela será feliz, muito feliz. Vai estudar, se formar, vai se casar, construirá a sua família e vai viver muito bem, apesar de uma visão unilateral.

Sempre aprenderemos a viver com o que nos foi “dado”. Depende muito de quem está do lado ter a sensibilidade para entender e ajudar numa dificuldade. Mas, antes de tudo, depende de nós não usarmos lamentações para vivermos num papel de vítima. Depende de nós vermos o copo meio cheio e prestar atenção no que temos, mesmo que não seja aquilo que todos têm. Depende de nós a felicidade.

Comentários

  1. Se a vida te der um limão, faça dele uma limonada!
    Foi bem isso o que você demostrou no texto! E me lembrou também o caso da filha de uma grande amiga, que tem apenas 20% da visão nos dois olhos e vive tão tão tão independente, que chego a esquecer dessa limitação visual dela!
    Obrigada por compartilhar! Bj

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