Entre apegos e desapegos

Por Mariana Martins Villas, mãe brasileira na Bélgica e colaboradora convidada no Mães em Rede

belgicaMeu nome é Mariana Martins Villas, também conhecida por Mazinha pela família e amigos. Sou paulistana, caçula de três irmãos, ecóloga de formação e mãe de duas lindas meninas Lisa e Dora. Sempre fui sonhadora, ambientalista por convicção e criação. Engravidei logo depois de me formar com 24 anos, sem nenhuma estrutura financeira e emocional, com um namorado que hoje é meu marido e grande companheiro. Foi muito difícil dar o passo de nos mantermos juntos, mas valeu muito a pena porque hoje tenho aquilo que é mais importante para mim, minha família.

Nestes últimos 8 anos tive que aprender a ser mãe, mulher, profissional. Não tem sido fácil conciliar tudo e ainda manter a busca pelo emocional equilibrado e pelos sonhos pessoais. Atualmente me mudei para Gent, na Bélgica, onde meu marido faz parte de seu doutorado.

Agora estou aqui, entre maternidade, casamento, profissão e estudos, desbravando o velho mundo, animada com novos desafios que estão por vir.

Escolher este caminho nos ajudou, e muito, a praticar o desapego. Ao decidirmos vir morar na Bélgica em 2013, tivemos primeiro que sair de São Paulo, onde o custo de vida não está fácil. De uma casa de sobrado da Vila Mariana, com direito à porão, quintal, casinha de boneca e balanço, fomos direto para um apartamento em São José dos Campos de 120m². Nessa primeira mudança tivemos que deixar muitas coisas. Nunca fui muito apegada a coisas materiais, mas me doía deixar uma boneca, ou uma panelinha que sabia que as meninas gostavam de brincar… Mas hoje em dia, convenhamos, as crianças tem tanto brinquedos que não usam nem a metade. Então, levamos poucas coisas… Um ano depois, chega a grande hora de mudar de novo, agora para Gent, na Bélgica. Então começa aquela bagunça, caixas, doação de roupas… E… o que levar? O que guardar? Renato, mais desapegado impossível, não queria guardar nada, e eu me vi meio insegura pela primeira vez vendo tudo ser desmontado… Respirei fundo e fui em frente. Vendemos praticamente todos os móveis, algumas coisas minha cumadre querida guardou, outras pequenezas foram para a casa das mães. Pronto! Roupas separadas, brinquedos leves e alguns livros. Missão cumprida.

Dois meses depois, já instalados e razoavelmente adaptados, percebo que não temos, além de nós mesmos, nossos ideais e ensinamentos, nenhuma referência material de nossas famílias, de nossa vida brasileira. Nem mesmo fotos, porque poucas pessoas, e eu não sou uma delas, tem o hábito admirável de imprimi-las e não mantê-las eternamente em hardwares…

Aí então que entram as comidinhas, uma das poucas coisas que realmente podemos fazer que nos remetam ao Brasil. Dizem que o olfato é muito associado a memória emocional,   capaz de trazer a tona lembranças poderosas de forma instantânea. E aí está uma coisa que podemos nos apegar sem problema, pois não gera bagagem alguma…

Então este sábado foi dia de relembrar a família. Por acaso desejo súbito do Renato de comer bacalhau! Prato típico da família da minha mãe, portuguesa com certeza, e especialidade da minha avó, que mesmo quase cega consegue fazer uma bacalhoada que só ela.

E lá fomos nós atrás dos pertences, visitamos o “Vrijdag Market”, que significa Mercado de Sexta-feira, uma feira ao ar livre com variedades como frutas, verduras, legumes, peixes, carnes, frango, roupas, sapatos, acessórios e por aí vai…

Ficamos impressionados com o tamanho das barracas de peixe, as variedades de carne e as barracas de queijo. Essa última uma loucura para mim!!! Mas não pudemos abusar afinal nossa geladeira é metade de uma normal no Brasil, do tamanho de um frigobar.

Bom, lá fomos nós a procura de bacalhau. Só conheço bacalhau desidratado, mas aqui é tudo fresco. Ao chegar na barraca pensamos, como é bacalhau em inglês mesmo? Nessa hora veio aquela imagem do meu avó Carlão, sempre nos ensinando inglês, dizendo “Codfish”. E lá fui eu toda empossada do conhecimento solicitar pela iguaria. E aí a mulher me mostra o peixe, eu olho para o Renato e penso, sei lá, nunca vi esse peixe fresco, não sei se é ele mesmo…aliás, quem ai conhece cabeça de bacalhau?? E conversa vai, conversa vem com a vendedora e, enfim, ela nos oferece um filé branco, bem bonito, com preço bom, ah, foi ele mesmo!

Peixe na mão, ovos frescos, batatas, azeitonas da barraca de coisas italianas (Nhamy!!!), batatas, azeite… Só faltava a couve! E como achar couve aqui é difícil, eu ainda não tinha visto no mercado, sempre procurei porque a Dora gosta muito. Paramos numa barraca de verdura e eu fico no pé do Renato, “como é mesmo couve em inglês?” ele responde “Cabage, mas também pode ser repolho… como você sabe, são da mesma espécie, mas estágios de crescimento variados…” e aí recebo uma aula de morfologia vegetal… Por fim saímos satisfeitos da barraca com um repolho na mão, meio enrrugadinho, diferente do que estamos acostumados, mas era o que tinha.

Bora para o fogão! Renato pede para eu cozinhar, mas fica em cima de mim dando palpite em tudo que eu fazia… O que na verdade foi divertidíssimo, pois foi feito tudo bem conjuntamente, as meninas querendo participar, pegando as coisas na geladeira, descascando, cortando… Enfim o prato vai para o forno, regado a bastante azeite, é claro!! E de repente aquele cheiro de bacalhau, que para mim lembra Natal, toma conta da casa! É incrível como um simples odor pode encher o nosso coração.

Pousamos para a foto e mandamos para o Brasil, bem no dia do batizado da filha do meu primo, onde todos estão reunidos em Ilhabela, onde mora minha avó. Parece coincidência, mas não acredito muito nelas.

Essa é uma das formas que a gente pode usar e abusar para se sentir mais em casa, mesmo improvisando parte dos ingredientes. Às vezes é preciso se desapegar de móveis, brinquedos, panelas… Mas apego com receitas, fotos, músicas e tudo aquilo que aguça sua memória e que couber no seu coração, está liberado!

Comentários

  1. Oi Mariana! Nada como se sentir em casa, nao? Adoro a Bélgica. Minha irma viveu seis anos em Bruxelas e um dos meus sobrinhos faz faculdade aí. As meninas vao aprender esta lingua cheia de consoantes e traduzir tudo para vocês!

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