Decifra-me ou Devoro-te: Cairo.

Semana passada contei para vocês sobre Sharm. Mas, estando no Egito, vamos ficar só na praia? Não, não pode. Uma vez lá, tem que ver as Pirâmides. Por mais que a praia estivesse uma delícia, principalmente depois desse longo e tenembroso inverno londrino, não podíamos perder essa oportunidade.

Saímos de Sharm El-Sheik bem cedinho no domingo de Páscoa, bate-e-volta. Aquele ia ser um longo dia, já sabíamos: agenda lotada e previsão de volta para às nove da noite. Preparar, apontar , já… começa a maratona. 6 da matina pegamos aquele bimotor que voou baixinho por pouco mais de 40 minutos até o Cairo. Da janela, embaixo a paisagem foi mudando, do mar para as montanhas desérticas, planícies desérticas, nem um pontinho verde, nadica de nada. “Como as pessoas vivem e produzem aqui?”, eu pensava.

Chegando no Cairo, dava para sentir uma certa tensão no ar. Fomos recebidos por nossa guia Maia, já uma novidade, porque ,pelo menos no Hotel, não havia uma mulher trabalhando. E Maia era uma egípcia porreta, controlou o dia todo um grupo de 16 turistas, evitou o assédio de vendedores ambulantes em pontos turísticos, mediou justamente negociações com prestadores de serviço e, claro, conduziu com maestria o grupo para os melhores negócios e comissões. Afinal o turismo ainda é o principal setor da economia egípcia, apesar da revolução e de tantos conflitos ao redor do país. Maia quebrou todos os estereótipos que eu pudesse ter de uma mulher egípcia. Mil pontos para ela, e um belo comentário no TripAdvisor.

Tivemos que esperar os outros grupos de turistas das diferentes companhias que operavam o passeio. Esperar para quê? Ué, estamos no Cairo, tínhamos que sair em comboio da área do aeroporto, por questões de segurança. As orelhas levantaram, como em uma reação atávica… “Mas tem algum perigo, Maia?” “Não, não tem risco algum, estamos todos muito satisfeitos com o novo presidente”, falava ela ao microfone enquanto da janela do ônibus víamos soldados com metralhadoras a cada 100 metros e tanques de guerra na saída do aeroporto.

Dali seguimos para o Museu Nacional Egípcio, onde está grande parte do tesouro arqueológico da antiguidade egípcia, tirando aquilo que foi levado, para não dizer outra coisa, ao British Museum, ao Louvre e ao Metropolitan Museum…

Na frente do museu, vimos a praça onde aconteceu a revolução em 2011. Do lado do museu, prédios destruídos por explosões e fogo. Ao lado da entrada, mais tanques e mais soldados com metralhadoras.
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“Maia, tem algum perigo?” “Não, nenhum, isso é para a segurança do museu”, e desconversava, “não comprem papiro de nenhum vendedor de rua, isso não é papiro, é folha de banana. Vou levar vocês no museu do papiro, lá tem o original.” Ouça o efeito sonoro da caixa registradora.
Esqueça qualquer referência de museu europeu que você tenha na cabeça. O museu do Cairo, apesar de ser de uma riqueza sem par em termos de acervo, é muito mais simples do que você possa imaginar. Não tem um grande projeto de vitrinismo, nem mesmo de iluminação, nem ar condicionado tem. Mas em compensação as peças são incomparáveis em relação a qualquer museu que eu tivesse visitado exposições egípcias. Lá está o tesouro de TutanKamon, Encontrado em seu túmulo em 1922, intacto. . A famosa máscara mortuária do faraó, é parte do acervo. Maravilhosa.
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O museu também abriga múmias muito bem conservadas , uma delas dizem que é de Ramsés II. Impressionantes são as múmias, algumas com cabelos, outras com unhas que se vêem cortadas. “Como pode naquele tempo, um povo ser tão avançado na medicina? Desenvolver técnicas de conservação tão precisas? Onde foi parar esse conhecimento?”, eu continuava a pensar. O mais curioso é a sala das múmias dos animais: falcões, gatos, cachorros, macacos, e até um crocodilo , sem brincadeira, de uns 3 metros. Todos enfaixadinhos em gaze.
Do museu fomos fazer um passeio no Nilo… “que é opcional”, disse Maia, “quem não quiser pode ir de ônibus direto para o restaurante, mas vai demorar o mesmo no trânsito, e ainda vai perder de ter uma vista do Cairo do Rio Nilo”… Vamos pelo Nilo, o trânsito no Cairo é uma atração à parte de tão caótico, ainda não tinha visto nada igual .
Ver a cidade do rio foi bastante peculiar. Enquanto Maia nos mostrava caríssimas construções à beira do importante rio, que chegavam a custar alguns milhões de libras inglesas, também nos apontava barquinhos, muito, muito frágeis e contava, “aqui no Rio vivem os mais ricos e os mais pobres do Egito. Essas pessoas vivem nesses barcos, são famílias inteiras que nunca pisaram na terra do Cairo, não sabemos quantos eles são. Não existe nenhum controle das autoridades sobre eles. Eles nascem, crescem, vivem e morrem do rio.” No mínimo chocante essa afirmação.
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Depois do almoço, seguimos para Guiza, a Necrópole que concentra o complexo de pirâmides no Saara. Mas antes, uma parada no Museu do Papiro… Titim, sobe som da caixa registradora outra vez. Maia nos conduziu novamente para a compra certa do papiro original, com direito a demonstração de como se faz o papiro e tudo. A essa altura eu já pensava “preciso colaborar para o desenvolvimento desse país cuja economia se baseia nesse produto que estou consumindo, o turismo“.
Já eram mais de três da tarde, começando a bater o cansaço, no meio das construções da cidade avisto uma pontinha de pirâmide… “Ué mas elas não estavam no meio do deserto?” Sim, só que não. É o Saara, mas quase dentro do Cairo.

UAU! E a emoção foi maior do que ver pela primeira vez o Cristo redentor, a torre Eiffel, o Coliseo, a estátua da Liberdade, e todos esses ícones da civilização. “Como pode, meu Deus, isso é incrível, blocos de quadrados exatos, enormes, de pedras maciças, colocados um acima do outro e formando estas pirâmides ?”.
As imagens podem falar mais que minhas palavras.
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O pirâmide de Queóps é a maior. Mas Quefrén, o filho, quis respeitar o pai, ao mesmo tempo demonstrar poder diante de seus súditos. Construiu uma pirâmide menor, mas acima do nível de Queóps, dando a impressão de ser maior, numa clara demonstração de poder. Não são apenas 3 pirâmides no complexo, são 9. E uma delas, a da rainha, você pode visitar por dentro. Se você quiser, confira o vídeo da semana passada do Mães em Rede, um pouco de nossa visita ao Cairo.
Para fechar com chave de ouro, a Esfinge… que é bem menor do que eu pensava, mas fascinante, pela perfeição de seus detalhes. No ponto da Esfinge, você tem uma visão perfeita de todo o Vale de Guiza com as três pirâmides ao fundo e a Esfinge na frente.
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Cansados, com o sol desértico no coco o dia todo, subimos no ônibus e pensei, : bom, timing certo, hora de ir embora… “Antes de seguirmos para o aeroporto, vou levar vocês à casa de uma família beduína que produz óleos essenciais com princípios terapêuticos há muitas gerações. São óleos que eram usados tradicionalmente no processo de mumificação”. E toca o grupo se arrastando loja adentro para assistir a demonstração. Acho que o cansaço e minha solidariedade falaram mais alto do que o senso crítico. Olha a caixa registradora de novo aí gente. Mas, tenho que me dobrar, dos óleos que comprei já testei um , o de menta, que me descongestionou záz-tráz um resfriado que estava insistindo em me pegar.
Depois de um dia cheio de Cairo e muita história para contar, subimos no avião de volta para o pedacinho de paraíso.
Porém, dentro de mim continua a se repetir o enigma… “será que o que estancou o desenvolvimento de um povo tão cheio de riqueza intelectual e cultural, mais do que a material, não foi a falta de divisão dessa riqueza? Será que a história da humanidade não segue o mesmo caminho das antigas civilizações que desapareceram? Esse sistema de concentração de poder e riqueza, que há milênios persegue a jornada da humanidade não está colocando em risco o jeito de se viver na terra?
Lucca, esse é o mundo que posso te dar, meu filho.
E, na outra mão, esse é o filho que eu posso deixar para o mundo.
Um mundo que espero, do que tenho de mais profundo dentro de mim, seja melhor.
Decifra-me ou devoro-te.

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