A história da Clara

Para celebrar o próximo dias das maes, vamos aproveitar este espaço do blog para contar histórias de mães que admiramos. Escolhi começar com a história da Clara, porque nao existe nada mais bonito que ver uma criança crescer. Crescer e se transformar em uma pessoa linda, valente, inteligente. Crescer e se transformar em mãe. Deixo aqui com vocês a historia de uma menininha que eu vi se transformar em tudo isto e que conta para a gente como foi parir, em sua casa de Brasília, a sua primeira filha,  Helena.

Clara tem 22 anos. Acaba de se formar em pedagogia pela Unb. Ela e o Matheus, pai da Helena, vivem em Brasília.

Em uma manhã qualquer, acordei sonolenta com aquela barriga enorme. Fui ao banheiro como em todas as outras manhãs da minha gravidez. Não me sentia diferente. Quando cheguei no banheiro, resolvi tomar banho para acordar bem disposta. De repente senti alguma coisa escorrendo pela minha perna esquerda. Olhei para o chão e vi algumas gotas de água meio vermelhas. Achei que estava fantasiando com o momento do parto ou que ainda estava com muito sono. Então continuei arrumando as coisas para tomar banho. Vieram mais gotas e de repente um riozinho. Abri a porta do banheiro e chamei pelo Matheus: – “Amor, vem cá”. Ele levantou da cama rapidamente e só entendeu o que eu queria quando me viu encarando o chão do banheiro. Então falou: “Ah meu deus, isso é a bolsa? Estorou?!” E eu respondi que não sabia porque estava imaginando o momento da bolsa rompendo em um belo banho de água no chão. Então achamos melhor ligar para as parteiras. Relatei o que tinha acontecido para a Iara e decidimos esperar até as 16h quando já tínhamos uma consulta marcada, pois eu ainda não estava sentindo contrações ou nada parecido. Pois bem, mantivemos a calma, Matheus respirou fundo e conteve sua animação. Contive minha ansiedade, mas já me sentia especial. Tomei meu banho, saímos do quarto como se nada tivesse acontecido, almoçamos, ficamos juntos. E não contamos para ninguém.

Quando chegamos à Luz de Candeeiro (equipe especializada em parto planejado domiciliar) estávamos ansiosos por ouvir que realmente a bolsa tinha estourado e que logo teríamos Helena nos braços. Mas os dois, lembrando de todos os encontros em que falamos em conter a ansiedade, mantinham-se muito bem controlados, pacientes e com alegria no olhar. Num assanhamento que só, como se diria por aí. Enfim, quando a porta abriu, já começou a felicidade no abraço e sorriso das três parteiras. Conforme ia entrando, escutava palavras de alegria, abraços, cuidado e perguntas de como estávamos. Sentamos e contamos cada detalhe. Quando terminamos o relato, sim, a bolsa tinha estourado e deveríamos aguardar as contrações virem. Ir monitorando, percebendo os movimentos do corpo, procurando ficar descansados e agora estávamos mais próximos do que nunca do grande momento!

Colocamos a meta de espera pelo trabalho de parto até domingo. Então eu realmente teria que me controlar porque poderia ter que esperar um tanto. Ainda era sexta-feira à tarde! Enfim, aquela consulta foi uma delícia! Helena super bem, pressão super bem, posição e barrigão super bem. Mamãe e papai super bem! E o melhor: as três parteiras estavam em Brasília e iam poder estar no parto!! Essa foi uma grande notícia!! Portanto, saí daquela consulta leve, calma, feliz, contente, como se pudesse esperar o quanto fosse preciso porque agora minha filha estava a caminho e eu só sentia uma baita alegria dentro de mim! Podia abraçar o mundo! Sair saltitando pela rua! Cumprimentar todos e dizer o quanto estava lindo aquele dia! E querem saber o mais gostoso de tudo aquilo? Estava tudo acontecendo só entre eu e Matheus, apenas nós dois estávamos vivendo todos aqueles sentimentos e isso me dava a sensação maior ainda de que era um momento nosso que vinha pela nossa filha e nada mais. Tudo seria do jeito de nós três.

Saímos da consulta e fomos providenciar as duas últimas coisas que precisávamos para completar a lista dos itens necessários para o parto. Fomos às compras! Escolhemos o plástico para forrar a cama e a peneira. A moça que nos atendeu na loja foi super simpática e quando estávamos indo embora comentou “Boa hora! Já está quase nascendo né?” E depois comentamos entre nós: “É… Você não faz ideia do quanto já esta quase nascendo!” Pensando que se falássemos que a bolsa já tinha estourado a moça e a loja teriam entrado em fuzuê!

Passamos na padaria, compramos um mini abastecimento e algumas castanhas, passas e amêndoas. Matheus foi assistir ao jogo do Vasco enquanto eu me arrumava para caminhar. Ele me ajudou a calçar o tênis que mal cabia de tanto inchaço. E depois sofreu um pouquinho quando fomos desligar a televisão! (Risos) Enfim, tudo pronto, fomos para a rua por volta de 19h30! Andamos animados, bem dispostos e de mãos dadas pelo condomínio. Duas, três ou quatro vezes tivemos que parar, pois sentia uma pressão forte na base da barriga. Batemos na porta da casa de uma das parteiras e entramos para tomar um lanche. Conversa vai, conversa vem falamos de como eu estava me sentindo e logo ela vem me dizer que eu estava tendo contração. Sim! Aquele “endurecimento” da barriga era uma contração e logo comecei a reparar uma certa cólica que vinha junto. Mas estava tão calma, conversando, bebendo água, sentada tranquilamente na cozinha. Ela nos ensinou a contar a entender as contrações com o uso de um aplicativo que o Matheus baixou no celular.           Que modernidade! O aplicativo fazia tudo! Contava a duração da contração, o intervalo entre elas, quantas já tinham acontecido em determinado espaço de tempo… Um fenômeno da tecnologia! E uma mão na roda…

Voltamos para casa munidos do aplicativo, de uma boa conversa e da beleza da lua que começava a nascer. Tomei um banho e fomos tentar dormir, com o quarto já diferente da mudança que fizemos á tarde. Tínhamos movido a cama de lugar e testado a posição da piscina para o parto. Bem, nós dois deitamos e tentamos dormir quase às 22h. Matheus conseguiu descansar 20 minutos picados e eu dormi uns 10, no máximo. A todo momento eu cutucava ele pedindo que marcasse mais uma contração e dali alguns segundos que parasse de marcar, pois ela tinha passado. Assim ficamos até quase 2h da manhã, quando eu não aguentava mais ficar deitada e fui ao banheiro planejando tomar um banho para ajudar no desconforto das contrações. Por curiosidade, resolvi pedir para o Matheus conferir o intervalo entre as contrações e adivinham? 5 minutos! É, achamos melhor ligar para as parteiras… Dali a pouco chega a Iara, entre 2h e 2h30, e conversou comigo. Decidimos fazer o exame de toque e já tinham 5cm de dilatação! Ela estava esperando que tivesse tipo 2cm ou 3cm… Bem, dali pra frente eu fiquei me concentrando nas contrações sentada na privada do banheiro com a porta aberta e agarrada na toalha do Matheus que estava pendurada ao meu lado.

Enquanto isso, os dois começaram a encher a piscina, trouxeram baldes, colocaram a mangueirinha grande e assim ficou o vai e vem de arrumar tudo para aquele momento. Eu percebia alguns movimentos, mas ficava bem mais concentrada na minha. Foi então quando as contrações começaram  a ficar bem mais fortes e eu já não estava apenas respirando enquanto elas vinham, estava gemendo e fazendo um barulho parecido com o que ouvi tantas grávidas em trabalho de parto fazerem nos vídeos que assisti durante a gravidez. Me pareceu um som meio que universal das parideiras… E realmente aliviava. Minha mãe acordou e tomou conhecimento da situação: a filha dela estava em trabalho de parto e logo a neta estaria chegando. Ela foi ajudar a encher a piscina e quando já estava cheia a Iara me conduziu até a banheira de uma forma toda cuidadosa.

Quando entrei na piscina, uau! Que sensação mais maravilhosa desse universo inteiro! Parecia que podia aguentar mais  o que fosse! Tudo estava lindo! Fiquei na piscina curtindo a água quente, as correntes de água fria e água quente quando um dos três ia misturando as águas… Uma delicia! Até sentir as contrações passou a ser mais gostoso. Então lá para umas 4h a Ana Cynthia e a Nayane (as outras parteiras) chegaram. Foi quando percebi realmente que estava tudo acontecendo de verdade! Era real! Como se diz? “A coisa estava ficando séria”. Mas vamos nos concentrar nas respirações, manter o foco, procurar a calma, pensar na alegria que estava ali na minha barriga… Dali pra frente é uma senhora confusão na minha cabeça, não sei a ordem certa dos fatos, pra mim, foi tudo muito rápido! Em algum momento, eu sentei na banqueta de parto apoiando as costas no Matheus que estava sentado em uma cadeira atrás de mim. Em algum momento, a Nayane fez uma massagem milagrosa que me deixou mais tudo de bom e alegria. Em algum momento, a Nayane me deu aquelas castanhas e passas que a gente tinha comprado mais cedo na padaria. Em algum momento, eu tomei uma vitamina de mamão, maçã e laranja (eu acho). Em algum momento, a Ana Cynthia me deu água geladinha. Em alguns momentos, elas escutavam a batida do coração da Helena que, como disseram, estava melhor do que o de todos nós juntos. Em algum momento, a Nayane colocou uma toalha gelada no meu pescoço que me aliviou um tanto. Em algum momento, eu sentia um ventinho gostoso que me dava uma revigorada. Em algum momento, minha mãe me deu uma baita força ao pé do ouvido dizendo para eu ser forte e que já era forte. Em alguns momentos, a Iara me trazia à realidade, bem, ela me trazia a concentração para aquele fim, o de fazer a Helena vir ao mundo. Em algum momento, a Ana me acalmava.

E em todos os momentos o Matheus ficava pra lá e pra cá garantindo que tudo estivesse à disposição das parteiras, ele sentava perto de mim, me dava a mão, me dizia para ser forte, me acalmava, me trazia carinho, dizia que estava junto comigo, me olhava dando toda força e coragem do mundo. Ele me dava a segurança de que tudo estava bem e que eu dava conta daquilo como fez desde o dia que descobrimos que seríamos pais.

Bem, eu sei que em algum momento eu estava na piscina e percebi que o dia estava clareando. Uau! Como passou rápido! Foi então que me convidaram para ir pra banqueta porque as contrações estavam beeem fortes e eu já sentia uma vontade enoooorme de fazer força pra ela sair! Mas não encontrava posição e na banqueta poderia ser melhor. Sentei na banqueta, Matheus sentou na cadeira atrás de mim, Iara, Ana e Nayane sentaram na minha frente no chão e minha mãe ficou em pé encostada na porta do banheiro. E foi aqui que o bicho pegou. Eu tinha que fazer força, muita força. Ou nem tanto, considerando que estava mais gritando do que concentrando a vontade de fazer força em realmente fazer força. Fiquei – depois descobri quanto tempo – 1h fazendo força ali. Nesse momento me veio tudo. Foi o momento da transformação. Veio medo. Medo de deixar nascer. Medo de ser mãe. Medo de estar acontecendo. Medo de não dar conta da vida que se iniciava. Medo de perder o casal que eu e Matheus somos. Medo de relaxar pra passar uma cabeça. Medo da dor. E que medo da dor. Medo de ouvir o choro dela. Medo de ser forte. Medo da força da vida que vem. Medo daquele sentimento de natureza sendo vida. Medo de finalmente estar nascendo a minha filha. E o medo ficou por um tempo. Me vieram algumas sensações de medos que senti na vida, coisas que passei em casa, com a família, com meus pais. Me deu medo aquele amor imenso que estava ali. Mas eu sentia as mãos do Matheus e as apertava. Eu sentia a voz dele. Eu sentia o corpo dele forte me sustentando. Eu sentia o chão nos meus pés. Eu sentia a força vindo na barriga. Eu sentia uma força que não sei de onde vinha e era a força que eu sabia que faria com que ela nascesse. Eu sentia o olhar das três parteiras que me apoiavam e me davam coragem. Eu sentia a minha respiração que precisava se acalmar e concentrar. Eu sentia a ansiedade e preocupação do Matheus e da minha mãe, ali presentes. Eu sentia como se estivesse mais próxima da natureza, do mundo, do que não me era palpável. Fechava meus olhos, rezava, tentava me acalmar. Era muita emoção. Muita responsabilidade. Muito amor. Muita força. Muita vida. E tudo isso me fazia pensar se eu era capaz.

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Até que chegou o momento em que esses pensamentos e sensações tinham que sair da minha cabeça. Era a hora da Helena nascer. Tinha chegado o momento de deixar vir. Simplesmente isso: deixar vir. Percebi que era porque eu estava com tanto medo de sentir a dor e de me tornar mãe (mesmo tendo sonhado e gostado disso durante os meses de gravidez) que minha filha ainda não tinha nascido. E como é difícil o caminho de deixar acontecer. Pra mim, foi. Em alguma hora que não sei especificar qual foi, em vez de gritar que “ia morrer”, “queria ir pro hospital” ou qualquer coisa do tipo, deixei sair um “eu vou conseguir!” e acho que esse era o inicio da minha escalada de saída do vale de parir.

Então a Iara me disse que a cabeça dela já estava dando pra ver, realmente, eu e Matheus víamos pelo reflexo do espelho. E nos intervalos daquela força gigante de fazer Helena nascer, eu respirava e até chegava a pensar que “Pronto! Passou! Não vou sentir mais dor do que isso!” Bem, não era muita verdade porque dali alguns segundos lá vinha mais forte. A Ana virou pra mim e falou assim: “Clara, a próxima dor que vier você vai respirar comigo e soltar assim… junto comigo… vamos lá!” E até me pareceu que todos se ajeitaram em seus lugares na expectativa da próxima dor que viria. E foi certeiro: a próxima dor veio, eu comecei a respirar, iniciei um grito como já vinha fazendo. Mas a Ana pegou minha mão, eu olhei pra ela e imitei a expiração dela. Acho que até fiz a mesma configuração de rosto que ela. Quando vi, estava fazendo uma baita força e uau… aquela pressão… mais força… e… um alívio instantâneo de tudo… um silêncio… uma paz… e um choro! Helena tinha nascido!! “Olha sua filha, Clarinha”, “Amor…olha ela! Meu Deus”, “Pega ela” e eu lá sem dar conta de mexer pra cá ou pra lá! Sequer abria os olhos… Olha, quaaaaaanta emoção é parir um filho! E mergulhada em tanto sentimento de ser mãe, de parir, de ter feito força, de estar bem ali um corpo vivo, tipo, era real! Não estava mais na minha imaginação de como seria a minha filha, de como seria pegá-la, abraça-la, amamenta-la… Ela estava ali! Era só esticar os braços que eu sentiria tudo que passei meses (ou até anos, porque sempre quis ser mãe e vivia sonhando acordada com a sensação) pensando e tentando imaginar. Isso também era assustadoramente maravilhoso. Um bebê! Uma pessoa! Era muito real! Muito verdadeiro! Aos poucos fui entendendo aquilo, me entendendo e todos me entendiam, me respeitavam, deram o meu tempo e me ajudaram a abraçar tudo que tinha mudado ali, naquele momento que ela nasceu. E assim, peguei minha filha no colo. Sim, em meio a muitas lágrimas, soluços, sorrisos, alegria e acho que no contexto do momento de maior coragem de toda a minha vida. Afinal de contas, nasceu um bebê, nasceu uma mãe, nasceu uma mulher, nasceu um pai, nasceu um homem, nasceu uma família.

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