Novas famílias

Somos familia

Somos familia

Minha mãe tem uma moça que trabalha em casa. Esta moça tem um filho de  oito anos. Vamos  chamá-lo de Paulo (nome fictício). O menino não tem pai. Como benefício ao salário de sua funcionária, minha mãe paga uma escola privada ao Paulo. Nas últimas férias em que estivemos no Brasil, era o mês de agosto e claro, mês em que se celebra o dia dos pais. Em uma sexta-feira, antes do domingo festivo, o menino chegou em casa contando que na escola fizeram uma grande festa para comemorar a data. Todas as famílias foram convidadas. Teve música, discursos, dança e presentes. Menos para Paulo e meia dúzia de meninos e meninas órfãos de pai. Estes foram levados para uma sala fechada. Lá, enquanto a festa rolava fora, eles passaram a manhã desenhando.

Se fosse filho meu, teria tirado desta escola neste mesmo dia. Mas a moça funcionária, mulher humilde, está feliz que seu filho tenha a oportunidade de uma educação “melhor”, que ela nunca teve. E Paulo continua indo a esta escola, mesmo que para isto seja humilhado desta forma tão cruel. Mesmo que a escola, que deveria prezar pelo bem-estar de todas suas crianças, esfregue na sua cara: “você não tem pai”, “você é diferente”.

Sempre que lembro desta história lamentável, minha raiva volta. E lembrei dela esta semana quando o atual presidente do Congresso brasileiro quer (re)definir o que é família. Então para este senhor, Paulo e sua mãe não seriam considerados uma família, correto? Mas será que é só no Congresso que este tipo de proposta absurda resiste? Ou será que a sociedade brasileira ainda repete padrões conservadores e preconceituosos, mesmo quando parece que está fazendo algo inocente, como comemorar o dia dos pais?

A Espanha, país de tradição católica, que durante séculos (literalmente) abrigou a Santa Inquisição, país de origem da Opus Dei (aliás nasceu aqui, em Aragão), que viveu 40 anos sob uma ditadura fascista, país que até os anos 70  uma mulher não podia abrir um crediário sem o consentimento do marido, tem um comportamento social muito mais avançado que o Brasil, na minha opinião. Aqui o casamento entre pessoas do mesmo sexo está permitido desde 2005. As famílias homossexuais também podem adotar sem problemas. Aqui é legal abortar até a semana 14 de gestação. Não é necessário dar nenhuma justificativa. Todo o procedimento médico é feito dentro do serviço público, isto é, de graça e seguro. A única modificação que o Partido Popular (partido conservador e católico que atualmente governa o país) fez nesta lei, foi que as menores de idade precisam apresentar o consentimento dos seus pais para abortar. Os socialistas tinham eliminado este trâmite.

Outra diferença é que aqui a violência contra a mulher, a chamada violência de gênero, é tratada como um problema de primeira ordem. Em 2014, foram assinadas 59 mulheres. Todas foram notícia de primeira página. Não é uma notícia escondida. As cidades onde sucedem decretam três dias de luto oficial. Há campanhas constantes em todos os meios de comunicação para combater e prevenir este tipo de crime.

Aqui, nenhum colégio público comemora dia dos pais ou dia das mães. Se entende que há famílias de todo o tipo, não se pode excluir nenhuma criança por causa de uma data inventada pelo comércio para vender perfumes. As festas aqui são: Natal, Carnaval, Primavera e Verão. A festa de Natal também é polêmica pois a escola é laica e não deveria celebrar uma data católica, até porque uma parte dos alunos tem outra religião, como os muçulmanos. Neste caso pesa mais a tradição. Pelo menos eles fazem um festival de música. Cada classe canta um canção. Uma forma de celebrar a paz, que no fundo é o que deveríamos comemorar no Natal. E todos participam, inclusive os árabes e chineses.

Na minha opinião, a Espanha, em matéria de avanços sociais, só precisaria melhorar no quesito mau trato aos animais, em especial durante as festas populares e na famigerada tourada. Mas isto fica para outro post.

Comentários

  1. Rosane, na última escola das meninas, em Joinville, o q havia era a festa da família, na época da primavera e sempre num final de semana para que quem trabalhasse pudesse ir. Pelo q vejo, acho q ainda leva anos para essa ideia se espalhar pelo Brasil…

Comentar