Na selva

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Eram três da manhã, dormia um sono pesado, exausta por ainda estar me acostumando aos novos estímulos da vida na selva, quando de repente comecei a ouvir: “O que é isso Bia, mas o que é isso que você jogou em mim?” Abri os olhos ainda no breu absoluto, não tinha certeza se o João falava dormindo, e resolvi me aproximar para ver se estava acordado. Ele já irritado: “Afinal de contas o que você está fazendo?”. Acendi a luz sem entender do que é que ele falava, quando vi seu braço envolvido por uma gosma castanha escura, nojenta. Olhamos os dois para o alto e no mesmo instante nos lembramos do dono da casa. Naquela manhã, quando recebemos as chaves para a mudança definitiva, perguntamos se o dossel que cobre a nossa cama não deveria ter um pano superior que vedasse a entrada para o teto da casa, já que só tínhamos os panos laterais. Gusti respondeu sorrindo que mosquitos não voavam tão alto. Acreditamos no especialista local e não pensamos mais no assunto.

Este era o nosso contato mais próximo com um Gecko (pronuncia-se Gueco) desde que havíamos chegado em Bali. Os Geckos são uma espécie de lagartixa gigante e aqui em casa temos de todos os tamanhos, que variam entre três centímetros (iguais às lagartixas brasileiras, mas que emitem sons) até 20 centímetros, aproximadamente. Na primeira casa que alugamos aprendi que iria ter que varrer diariamente os cocôs dos bichos, mas me convenci de que não era tão mal assim, já que eram feitos sempre nos mesmos lugares, com uma regularidade assombrosa. Ou seja, nesta noite, com a cena grotesca que contei há pouco, percebemos que, diante da disciplina do bicho, precisávamos ter um pano para por em cima da cama no mesmo dia. E mais, gostaríamos de descobrir uma maneira de diminuir a quantidade de Geckos no nosso recinto.

Acontece que os balineses reconhecem um lar feliz, afortunado e saudável também pela presença dos Geckos. Mesmo assim, andei tentando maneiras de achar alguém que quisesse levar uns bichos daqueles para a sua casa.

Já tentamos de tudo: falamos com o dono da casa, com Ketut, nossa fiel escudeira de todos os dias e consultora para os mais diversos assuntos, com o jardineiro, com o senhor que cuida da piscina, com amigos que moram na ilha há algum tempo. A princípio o jardineiro até tinha dito que conhecia um sujeito que tirava os Geckos dos hotéis de luxo e este certamente poderia nos ajudar. Mas no meio da nossa conversa Ketut, que também cuida da parte espiritual da casa, apareceu por perto afirmando que sabia de quem ele estava falando, mas que o tal sujeito não fazia mais esse serviço. Enquanto falava ela parecia dar broncas em balinês no sorridente jardineiro, e ele então resolveu se corrigir : “Ele já não caça mais Geckos, ninguém sabe por onde ele anda”. Mais um mistério dessa ilha tão repleta deles.

Nossa casa é limpa, vivemos limpando as sujeiras dos Geckos, e Ketut é impecável neste quesito, mas é uma casa de mato. Vicente começou a ter dores de barriga e  comecei a desconfiar dos tais bichinhos. Levei Vicente ao médico e disse: “Dr., tenho uma suspeita importante sobre essas dores. Minha casa tem muitos Geckos e eles defecam por todos os cantos.” O médico não se conteve e soltou uma gargalhada: “Bia, por aqui muita gente usa o cocô de Gecko como remédio. Isso não tem perigo algum.”

Dizem que o ser humano se acostuma a tudo nessa vida. Hei de dizer que em parte isso é verdade. Aqui raramente ligamos televisão ou vemos filmes, mas quase todas as noites assistimos ao nosso National Geographic particular. Já salvamos mariposas, libélulas e borboletas coloridas das garras dos lagartos. Ontem João e eu torcíamos para que conseguissem arrematar um marimbondo gigante. Segundo as nossas observações recentes, aquele deve ser o chefe da turma que anda construindo colmeias na nossa sala. Já tiramos umas dez, mas eles voltam pelo cheiro e constroem outras.

Por aqui não temos medo de assalto nos sinais, não nos apressamos para fechar o vidro do carro quando alguém se aproxima. Mas, antes de sair, é sempre bom olhar para ver se não tem um bicho dentro do sapato (nas poucas vezes em que usamos sapatos fechados ou tênis). E agora, felizmente, a temporada de chuva passou e as cobras não devem mais cair da árvore que fica no canto em que eu mais gosto de sentar para escrever.

Mas as borboletas continuam dançando no nosso jardim, a nuvem de libélulas nunca foi tão grande no arrozal e nem no nosso quintal. E hoje cedo, logo que acordei, recebi uma visita ilustre no jardim: era o Javan Kingfisher, um pássaro azul de bico avermelhado que, tímido, nem sempre aparece. Com ele me lembrei de que o pacote é completo, que os invasores deste espaço, ainda tão verde, somos nós e que tem coisas que a gente nunca vai aprender a gostar nessa vida, mas como dizia a minha sábia avó: quando casar, não escolha seu marido só pelo que gosta, mas pelos defeitos que será capaz de aturar.

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Comentários

  1. Bia, só mesmo Bandeira pra lhe dizer o que você desperta em mim: “Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo/ Quero apenas contar-te a minha ternura / Ah se em troca de tanta felicidade que me dás / Eu te pudesse repor -Eu soubesse repor / No coração despedaçado /As mais puras alegrias de tua infância!”

  2. Gecko! Mais uma aprendizagem! Lagartixas! Sempre as tratei com o devido respeito, pois afinal comiam os insetos da Ilhabela. Virou até coisa de se observar, à noite, quando ficavam mais assanhadas, com os meninos! Lagartixas, Osgas ( em Belém-PA) ! Mas estes geckos são mais chegados a um bom calango. Um ajuste das origens…pelo jeito. Prefiro pensar em pássaros tímidos que tem bicos vermelhos, tal e qual a mim quando me envergonho! Penso ser um discreto ajuste da natureza, que em penas, diz: – Desculpe a gosma, desculpe o cocô de Gecko, as cobras no canto preferido. Não esqueça, mesmo, que o jardim é maior!

  3. Poxa Bia, sempre gostei de lagartixas,principalmente das pequenas, até tive algumas que foram minhas companheiras em certos períodos .. mas não sei se me adaptaria aos Geckos, e principalmente à “sujeira pontual” deles.
    Adoro suas crônicas, a delicadeza de seu texto.
    Não pare, por favor não pare ! Estou sempre ansiosa por novas crônicas .. através delas até sinto que conheço um pouquinho Bali, inclusive os Geckos !

    * mande uma foto de um deles – by João, claro !

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