Uma mãe que vira monstro. E se orgulha disso.

Captura de Tela 2015-02-22 às 23.51.11Estávamos no aeroporto e, apesar dos inúmeros pedidos, em português e inglês, para que os pais não deixassem os filhos brincando com os carrinhos de bagagem, bem ali do nosso lado, duas crianças de não mais que cinco anos disparavam apostando corrida com dois deles. Os pais? Faziam um coro desanimado e quase inaudível de “meninos-parem” quando algum olhar irritado os encontrava, perdidos e acuados, sem impor qualquer respeito junto aos filhos e muito nos adultos que esperavam pelo check-in.

Alguns dias depois o cenário era o de um hotel onde estávamos hospedados. A pequena tirana, do alto dos seus quatro anos, estava aos berros porque a bateria do iPad havia se esgotado e ela se recusava a comer sem a companhia do dispositivo-babá. No dia seguinte, num restaurante de classe média alta em Campinas uma horda de meninos e meninas corriam e gritavam, como se estivessem num playground e não num espaço onde outras famílias tentavam jantar. Mais uma vez, pais ausentes, conectados em seus celulares e fingindo que nada estava fora da ordem.

Em todas as situações mais uma vez confirmei minhas impressões de que muitos pais, culpados pelas rotinas de trabalho pesadas ou porque simplesmente não sabem como lidar com essas situações, optam pela omissão. E com essa escolha estão decidindo deixar de educar.

Sou uma mãe chata, exigente e exagerada, segundo depoimento dos meus três filhos. Viro monstro. Como no livro de Joana Harris, em que a mãe sem a ajuda das crianças para organizar a casa, vai aos poucos sendo vista como uma besta horrorosa por eles. (http://www.fnac.com.br/quando-mamae-virou-um-monstro/p/135049). E não tenho um pingo de culpa por ser assim. Pelo contrário, me orgulho. Acredito que limite e regras não fazem mal, pelo contrário, filhos precisam delas para crescer e entender seus limites, obrigações e papel nesse mundo.

Há alguns anos, em outra viagem com as crianças, aguardávamos por uma mesa num café, quando a mãe de uma família indiana percebeu que estávamos em busca de uma mesa e, com um simples olhar e sinal com a cabeça, pediu aos filhos que recolhessem os restos de sua refeição e nos cedessem seus lugares. Comportamento de família indiana virou um private joke nosso, um exemplo de como queremos nos portar nessa vida, respeitando os outros e o mundo ao nosso redor.

Talvez porque tenha crescido em um ambiente parecido, com regras claras, muitas vezes ditadas por um olhar, e com muito respeito, afeto e amor, não consigo entender a dificuldade que alguns pais têm em impor limites. Limites que podem e vão variar de acordo com a família, a sociedade e a cultura, mas que devem existir. Claro que é difícil dizer não e ser rígida em algumas situações. Claro que é difícil administrar a revolta e raiva deles nessas situações. Mas ser mãe ou pai não significa ser legal o tempo todo. Você vai ter que virar monstro uma vez, ou duas ou muitas. E isso vai ser bom para seus filhos. E também para você e para o mundo onde vivemos.

Comentários

  1. Raq boa! Também cresci numa família com muitas regras e não fez mal nenhum. Como você bem coloca no texto, me ajudou a ser parte desse mundo, em que o espaço de respeito mútuo está entre o seu limite e o do outro. Limite é liberdade e libertador também. Mas, quando se muda pra cá e pra lá, os limites também tem que se adaptar, senão a vida pode ficar só de regras. Reforço a Rô, resta encontrar o equilíbrio.

  2. Quem disse que criar e educar filho não dá trabalho? Falar mil vezes a mesma coisa, punir quando necessário (sem agressão física), horário pra tudo, uso das palavrinhas mágicas: obrigado, dá licença, por favor,… , não jogar papel no chão, entre outras coisinhas. Adorava e ainda adoro até hoje, quando falam que meus filhos são educados e adorados por muitos. Sinal que cumpri bem o meu papel, mesmo que às vezes duvidasse se estaria fazendo o certo.

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